‘Filhas do dono’: lideranças femininas em empresas familiares precisam superar estigmas
No Dia Internacional das Mulheres, o Diário do Comércio conversa com duas lideranças em setores ainda muito masculinizados. A sócia da Arthros Incorporadora, Izabella Lages, construiu uma trajetória que integra direito, empreendedorismo e associativismo à incorporação imobiliária. À frente da Arthros, consolidou também uma atuação relevante no associativismo industrial, com passagem pela presidência da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Jovem e, atualmente, como vice-presidente de comunicação do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), além de representante da Fiemg no Fórum Nacional de Novos Líderes Industriais da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A segunda convidada é sócia administradora da Ivan Endo Advocacia, escritório boutique com foco nos direitos imobiliário, tributário e de família e sucessão, Rute Endo. O escritório já atuou em mais de 4 mil casos em diferentes áreas e contribuiu para a preservação de mais de R$ 1 bilhão em patrimônios familiares.
Como escolheram suas carreiras?
Izabella Lages: Eu me formei na Milton Campos. Atuei por um tempo, tive a oportunidade de ir crescendo no escritório e me tornar sócia. Sou filha de empresário, então o bichinho do empreendedorismo me picou também, e quando recebi um convite para entrar no grupo das empresas da família, que até então eu não atuava, entendi que poderia ser um momento interessante, principalmente porque estávamos construindo algo juntos. Eram empresas novas, onde eu poderia, talvez, dar um pouco mais da minha cara, não só trabalhando, mas também liderando da forma que eu acreditava. Então, criamos o grupo ACIP, que atua principalmente com construção civil e agronegócio. Hoje eu estou à frente da parte da construção civil, através da Arthros Incorporadora, criada em 2017. A gente queria criar uma empresa que fosse diferente, que faltava no mercado. Colocamos como nosso primeiro e mais importante viés, a incorporação através da arquitetura do bem-estar. Entrei na Fiemg Jovem para conhecer um pouco mais sobre gestão. Lá eu encontrei a possibilidade de compartilhar angústias e soluções. Comecei como membro, mas como eu não consigo ficar quieta, fui convidada para ser diretora de conteúdo do programa e depois me tornei diretora.
Rute Endo: Eu sempre fui polivalente. Quando eu saí da faculdade de direito, comecei a advogar, mas eu me interessava muito pelo empreendedorismo. Foi aí que eu fui cursar administração de empresas. Naquela época, em 2010, eu tinha cinco anos de formada e não sabia se voltaria para a advocacia algum dia. Estudar administração me abriu a mente para diversas questões econômicas e quais eram as dores do empreendedor que o jurídico pode solucionar. Em 2012, criei uma empresa voltada para funding, no mercado imobiliário também. Ela foi super bem, só que o direito continuava no meu coração. Eu venho de uma família de advogados, o escritório que hoje eu lidero foi fundado pelo meu pai na década de 1960. Em 2014, eu já estava com a inquietude de retornar ao direito. Eu fiz esse movimento, fechei a empresa e voltei a me dedicar 100% para a advocacia no escritório do meu pai. Foi um momento crucial porque, logo em seguida, ele descobriu que estava com câncer e a minha irmã mais velha, que era o braço direito dele, estava se mudando para a Colômbia. Não faz tanto tempo assim, mas era outra era, não tinha home office, e eu me vi no escritório praticamente sozinha. Foi o momento em que eu pude unir as minhas habilidades como administradora de empresas e advogada. Acho que o principal é o respeito por aquilo que foi construído por tantos anos. E como eu poderia trazer o meu olhar e inovar para que eu pudesse expandir esse legado. Foi difícil, a gente teve que digitalizar três toneladas de papéis. Durante esse processo, fui me aprofundando no conhecimento do escritório, dos clientes e como a gente atuava. E foi uma descoberta também pessoal do querer, do que eu desejava. Ali já entendia que, de fato, eu poderia ocupar as duas cadeiras – de administradora e de advogada. Mas quando me perguntam “o que você é”, eu digo que eu sou advogada, porque eu amo advogar. Naquele momento, me voltei realmente a mim mesma, num processo de autoconhecimento. Reconheci em mim o desejo de suceder o meu pai no escritório. Ele era uma pessoa rígida, descendente de japoneses – apesar de ser uma figura muito carismática -, com os filhos ele era linha dura, principalmente comigo, a caçula. E na cultura japonesa ainda existe muito essa predominância de figuras masculinas na liderança. Então, por mais que meu pai tenha criado suas quatro filhas para serem independentes e se proverem, ainda havia esse peso cultural. Até que numa reunião, tomei coragem e disse: “pai, eu quero te suceder”. E a partir daquele momento, ele passou a me olhar com outros olhos, pra minha surpresa, ele adorou a ideia e passou a me mentorar como sua sucessora. Foi uma jornada incrível de crescimento.
Trabalhar em família ajuda ou atrapalha?
Izabella Lages: O maior peso é que a nossa base é o teto dos nossos pais, e isso é algo muito grande. Precisamos ter uma escuta muito ativa, querer aprender e honrar isso. As empresas familiares têm essa peculiaridade de, obviamente, você não saber se está falando com o pai ou com o seu chefe em certos momentos. Outro problema é que você precisa se fazer respeitar, porque as pessoas vão falar que você é filha do dono te desqualificando. Cabe a nós construir e mostrar que antes do sobrenome, estamos lá pra ouvir, aprender, somar e se posicionar.
Rute Endo: Acho que nós, como mulheres, temos uma desvantagem em termos de reconhecimento da nossa competência técnica. Hoje em dia eu sinto isso muito menos, no começo da carreira, isso pegava bastante. E como a Izabella disse, precisamos de uma escuta ativa e, antes de mais nada, respeito. Ter a certeza de que respeito, credibilidade e a liderança são construídos, independente de ser filho ou não do dono. A liderança é uma jornada também de se liderar. Isso passa muito pelas questões de autocontrole, paciência e também entender qual é o seu lugar sem extrapolar.
Infelizmente vocês já devem ter enfrentado episódios de machismo e misoginia. Vocês podem exemplificar como conseguiram contornar a situação?
Rute Endo: Graças a Deus, eu não tive nenhum episódio de misoginia tão grave, como eu já vi casos, relatos muito graves de humilhações e questões até criminais contra mulheres em ambientes profissionais. Tive situações veladas. Essas ainda acontecem. Nós, mulheres, já caminhamos um longo caminho, não foi de graça, não tem sido fácil. O que eu posso citar é que, principalmente no meio jurídico, os comentários sexistas eram muito comuns até dez anos atrás. Agora eu sinto que isso tem, praticamente, desaparecido no meu dia a dia.
Izabella Lages: Eu confesso que tive mais sorte do que azar. Eu não tive nenhuma situação constrangedora, mas, infelizmente, a maioria de nós já teve, seja no trabalho ou fora dele. Eu prefiro focar nas pessoas boas que eu encontrei ao longo do meu caminho, e talvez essa seja uma grande dica que eu daria pra uma pessoa que passa por isso. Penso que, talvez, a gente tenha passado por situações mais silenciosas, mas eu continuo reafirmando que sendo firme, com preparo, tendo postura, e não indo na onda da pessoa.
Como líderes, imagino que exista no dia a dia de vocês um esforço para construir homens aliados. Qual é a importância desses homens e como vocês ajudam na desconstrução desse modelo vigente até aqui?
Rute Endo: Eu enxergo os homens como aliados. Estamos todos no mesmo barco, principalmente nos dias atuais. Acho que precisamos ser antimachistas. Nós, Mulheres, já conquistamos muito espaço e precisamos expandir. E, pra isso, é importante ter os homens como nossos aliados. Então, focar na solução e não nas pessoas, atacar os problemas e demonstrar para os homens que a visão feminina é complementar. Essa diversidade é muito rica, todos ganham porque são prismas de determinada situação que são observados e a solução pode ser muito mais enriquecedora e mais viável.
Izabella Lages: Na Arthros, coincidência ou não, a gente tem um número maior de funcionárias mulheres do que de colaboradores homens. Graças a Deus, o relacionamento sempre deu muito certo, mas a gente já fez algumas ativações, por exemplo, apoiamos um evento do Outubro Rosa para falar sobre câncer de mama. Hoje, dentro do sindicato tem um evento que se chama “Construindo com Elas”, que é super legal. As palestrantes são todas mulheres. Apesar do público ser predominantemente feminino, temos alguns homens na plateia. Eu sugeri um evento que se chama “Mulheres que Transformam”. No primeiro ano, nós fizemos só com mulheres, mas muito mais no sentido de nos conhecermos. No segundo ano, propus um evento aberto. Algumas mulheres reclamaram eu falei assim, “como que nós vamos falar sobre posições só pra gente?”.
Qual conselho vocês dão para as meninas que estão no início de carreira, que têm essa vontade de serem líderes no futuro?
Izabella Lages: Eu acho que não é bem um conselho. Eu entendo que a liderança exige equilíbrio, resiliência, pensamento crítico e capacidade de adaptação. No final do dia, você está resolvendo problemas. E pensar que ninguém constrói nada sozinho.
Rute Endo: Escutar é a primeira fase para uma boa comunicação E eu me sinto super honrada e privilegiada por poder dar esse conselho. Se eu puder inspirar alguém ou passar um pouco do que já vivi e como que eu enxergo agora, eu diria para não deixar o medo te paralisar. Saiba que o medo, muitas vezes, guarda grandes brilhos. E não se compare. As pessoas que chegam em cargos de liderança, não chegaram lá rapidamente, sem desafios. Eu tinha medo de falar para o meu pai que eu queria sucedê-lo. Na faculdade, eu tinha pavor do direito tributário. E aí, em determinada hora, eu precisei estudar. E foi um grande portal na minha vida. Eu me apaixonei novamente pelo direito, através do direito tributário. É a partir desses desafios que vão se apresentando na nossa vida que nós crescemos.
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