Solidão subjetiva cresce e passa a afetar saúde mental e produtividade no trabalho
A solidão deixou de ser sinônimo de isolamento físico e passou a se manifestar com força também em ambientes cheios, como empresas, famílias e círculos sociais. Dados recentes de organismos internacionais e publicações científicas indicam que a ausência de conexão emocional, mesmo entre pessoas socialmente ativas, tem impacto direto sobre a saúde mental e começa a produzir efeitos mensuráveis no desempenho profissional, na produtividade e nos custos associados ao adoecimento psíquico.
Cerca de um em cada quatro adultos no mundo relata sentir solidão frequente, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O dado chama atenção porque não se refere apenas a pessoas que vivem sozinhas ou isoladas, mas também àquelas que mantêm convivência regular no trabalho, na família ou em grupos sociais.

Segundo o psicólogo e pesquisador em saúde mental Jair Soares dos Santos, a presença de outras pessoas não garante proteção emocional. “Muitos indivíduos estão acompanhados no ambiente profissional ou familiar, mas não se sentem compreendidos ou seguros para expressar fragilidades. Quando essa desconexão se prolonga, o sofrimento psíquico tende a se intensificar”, afirma.
Solidão subjetiva
A literatura científica classifica esse fenômeno como solidão subjetiva. Trata-se de uma condição em que há interação social, mas falta escuta, vínculo emocional e sensação de pertencimento. Levantamentos do Gallup World Poll mostram que pessoas que se percebem solitárias apresentam níveis mais elevados de sofrimento emocional, independentemente do número de contatos sociais ou do estado civil.
Estudos publicados pela “The Lancet Psychiatry” reforçam esse diagnóstico ao apontar associação entre solidão persistente e maior risco de ansiedade, depressão e agravamento de transtornos mentais preexistentes. As pesquisas indicam que a qualidade das relações pesa mais do que a quantidade de interações ao longo do dia.
Impactos no ambiente corporativo
No mundo do trabalho, os efeitos da solidão acompanhada começam a aparecer de forma mais clara. Um estudo divulgado pela Harvard Business Review aponta que profissionais que relatam solidão apresentam maior esgotamento emocional, menor engajamento e risco ampliado de afastamentos por questões de saúde mental. A pesquisa associa diretamente a sensação de desconexão à queda de produtividade e ao aumento de sintomas relacionados ao burnout.
Apesar da incidência elevada, o tema ainda é pouco reconhecido nas organizações. Por não envolver isolamento visível, a solidão tende a ser interpretada como fragilidade individual. “Existe uma cobrança implícita para que a pessoa esteja bem apenas por estar rodeada de gente. Isso leva muitos profissionais a silenciar o próprio sofrimento”, observa Santos.
Especialistas recomendam atenção a sinais persistentes como sensação de vazio, dificuldade de compartilhar emoções, irritabilidade constante, fadiga emocional e percepção de não pertencimento, mesmo em ambientes coletivos. A orientação é buscar apoio profissional e investir na construção de vínculos baseados em confiança, escuta ativa e segurança psicológica.
Desafio pós-pandemia
No período pós-pandemia, o tema ganhou ainda mais relevância. Embora as interações presenciais tenham sido retomadas, estudos internacionais indicam que o mal-estar emocional associado à solidão não diminuiu na mesma proporção. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), reconhecer a solidão como fator de risco em saúde pública é um passo essencial para orientar políticas de prevenção, práticas corporativas mais saudáveis e estratégias de cuidado emocional, tanto no setor público quanto no privado.
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