2026, o Ano Intermitente
Se o ano de 2025 foi considerado o ano da transição e consolidação de novas tecnologias, o ano de 2026 já pode ser considerado o ano da intermitência. E o calendário, tanto no Brasil quanto no mundo, nos dão essa perspectiva de avanços e pausas, picos e vales, quase um fenômeno de pulsação. Batida a batida, evento a evento, um dia de cada vez, e nada mais.
No Brasil teremos feriados prolongados, a Copa do Mundo (e sua capacidade de parar nosso País), e a tensão de eleições que já se aventam polarizadas. Globalmente, é como se fôssemos viver uma arritmia, onde o radicalismo político (os extremistas se multiplicam e estão ocupando o poder até mesmo em países tradicionais), seguido do aquecimento global, um elemento real, com impacto na sobrevivência de longo prazo da humanidade, e geração de efeitos já nos dias atuais. Ou seja, instabilidade crônica.
Em outras palavras, o nosso normal em 2026 será a intermitência, um constante estado de alerta, testando adaptabilidade, resiliência, resistência.
No Brasil, essa intermitência já é um dado. Diferente dos anos anteriores, em 2026 teremos uma confluência de feriados nacionais que favorecem os feriados prolongados. Setores da economia como gastronomia e turismo terão uma oportunidade de ouro! Por outro lado, para o corporativo tradicional, incluindo logística, teremos um cenário de pressão para produção dos resultados esperados num período menos produtivo, se considerarmos a quantidade de dias úteis num determinado mês.
Mas a pausa não será apenas para o lazer. O País viverá dois grandes eventos que sequestrarão a atenção nacional:
- Copa do Mundo: realizada entre Estados Unidos, México e Canadá de 11 de junho a 19 de julho, ela será grandiosa (48 países) e desafiará a produtividade brasileira: jogos em 4 fusos horários (13h, 16h, 19h e 22h) significam apagão produtivo nos dias do Brasil, combinado com picos de consumo.
- Eleições Gerais: imagine que o cenário político atual, já polarizado, atingirá seu pico às vésperas das eleições em outubro, podendo se estender até novembro, em caso de segundo turno. Investimentos de longo prazo, ou qualquer tema que demande uma visão mais longeva, ficarão em compasso de espera até uma definição das lideranças políticas, que poderão significar maior ou menor segurança jurídica e administrativa nesse país.
Nesse contexto, a economia brasileira precisa sobreviver a esses verdadeiros “soluços”, ou seja, crescimento pequeno (1% a 2%no ano) impulsionado pelo consumo nos meses da Copa, enquanto se aguarda uma definição para temas mais complexos, como o futuro do país, a definição de políticas fiscais, entre outros.
O mundo sob tensão: Radicalismo e Xenofobia
Expandindo nosso olhar para além das nossas fronteiras, o ar segue pesado.
Seguiremos com Donald Trump, radicalmente posicionando os Estados Unidos como redefinidor das regras do comércio global. Em outras palavras, o protecionismo americano seguirá alimentando uma xenofobia mundial severa, onde quem é imigrante, quem é “diferente”, é culpabilizado pelas crises do País, gerando consequências para o mundo todo.
Ainda que pareça apenas política, essa polarização se estende ao social e religioso. Perseguições religiosas históricas estão destruindo acordos diplomáticos de anos, radicalizando fronteiras e jogando milhões de pessoas em fluxos migratórios, seguidos de portas fechadas e fome.
E que não tenhamos dúvida: o radicalismo não é mais um ruído de fundo, ou seja, algo que demora a entrar na nossa perspectiva; ele já é uma realidade social, pois figura como um dos principais elementos da geopolítica mundial, provocando mobilização de contingente de milhares, fragmentando cadeias produtivas, redesenhando dinâmicas sociais, e demandando suporte humanitário urgente.
Em meio ao caos político e econômico, a natureza não faz pausa. Acabamos de viver a COP30 aqui no Brasil, mas a conta do aquecimento global está cada vez mais alta. Escrevo em meio a uma onda de calor extremo que assusta — e é só o começo. E a gente demora a alinhar coletivamente as soluções, porque os governos radicais desacreditam a realidade dos fatos, e consequentemente, as metas ambientais, e o financiamento das soluções; no final, temos uma economia global sofrendo as consequências reais das mudanças climáticas, sem que consigamos endereçar adequadamente as soluções e correções necessárias, que precisam ser coletivas e globais.
E se considerarmos a COP31, a ser realizada na Turquia, também como evento relevante no calendário mundial em 2026, teremos a oportunidade de efetivamente implementar o que vem sendo discutido até agora, ou seja, (1) como os países desenvolvidos irão ajudar financeiramente os países subdesenvolvidos na transição climática; (2) a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, ou seja, transição energética real, sem contar (3) o papel estratégico da Turquia entre Europa e Ásia para toda essa discussão.
Trazendo uma perspectiva de ESG, ignorar os riscos climáticos coloca as empresas não apenas contra o planeta (e como a maioria não se posiciona, o risco de greenwhasing só aumenta), mas essencialmente contra seu resultado financeiro, já que o custo de capital para negócios não resilientes às mudanças climáticas tende a aumentar.
O que sobra para as empresas?
Na perspectiva de gestão corporativa, o planejamento de longo prazo é cada vez mais negligenciado, pressionando as empresas para uma gestão de curto e curtíssimo prazo, ainda que se mantenha a visão do longo. Ou seja, foco em respostas rápidas que consigam endereçar
1) Resiliência Operacional (mão de obra engajada, mesmo com tantos feriados e eventos), sistemas autônomos, ou seja, em alguma medida, menos dependente da intervenção manual.
2) Gestão Financeira: a gestão de fluxo de caixa deve conseguir dar conta de passar por meses de verdadeira paralisia.
3) Filtro ético: num contexto de xenofobia e radicalismo, as empresas serão provocadas a se posicionarem como lugares seguros para grupos minorizados, e assim conseguir atrair e reter talentos, que tendem a fugir de ambientes tóxicos e líderes omissos; a coerência em relação à sustentabilidade vai ser muito testada; é a diversidade não apenas para promover a inclusão dos grupos minorizados, mas sobretudo para ter uma narrativa coerente com a realidade do cenário mundial.
4) Adaptação e resiliência climática: com foco 100% em ESG, esse tema deixa de ser marketing ou boas práticas, e passa a ser elemento central da gestão de riscos de continuidade dos negócios. Atuar intencionalmente em eficiência energética e na construção de uma operação de baixo carbono vai proteger a organização contra diversos fatores exógenos, já identificados ou não.
Tendo dito tudo isto, a palavra de ordem para 2026 é: flexibilidade; adaptabilidade; o ano não perdoará quem é rígido, mas será adequado para quem for ágil, empático e sustentável de verdade. Porque é na adequação e busca de coerência internas que está a chave da sobrevivência num cenário tão desequilibrado e desafiador como o que temos à frente.
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