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Salário mínimo completa 90 anos ainda distante do custo real de vida

Valor surgiu como um dos pilares do projeto de desenvolvimento do País, ainda na década de 1930
Salário mínimo completa 90 anos ainda distante do custo real de vida
Foto: Reprodução Adobe Stock

Em 2026, o salário mínimo brasileiro completa 90 anos. Criado em 1936, durante o governo Getúlio Vargas e às vésperas do Estado Novo, ele nasceu como um dos pilares do projeto de desenvolvimento do País. Naquele momento, milhares de trabalhadores deixavam o campo rumo às cidades, impulsionando uma industrialização incipiente que demandava regras básicas de proteção social. Desde a origem, porém, essa “garantia” carrega um paradoxo: o salário mínimo sempre foi apenas o mínimo. Nunca foi suficiente para cobrir os gastos essenciais de uma família brasileira — como alimentação, moradia e transporte —, e os dados atuais apenas confirmam essa defasagem histórica.

Nesses momentos de reajuste do salário mínimo, um debate sempre retoma o foco: o salário mínimo atual é suficiente para cobrir o custo de vida no Brasil? A resposta segue sendo negativa. Segundo cálculos do Dieese, ao final de 2025 o valor necessário para garantir as despesas básicas de uma família deveria ultrapassar os R$ 7 mil. Mesmo com reajustes compostos pela inflação (INPC acumulado nos últimos 12 meses) mais o crescimento do PIB de dois anos anteriores, gerando um ganho real do poder de compra, o ritmo de valorização do salário mínimo ainda é insuficiente para torná-lo compatível com as necessidades básicas.

Somente com a Constituição de 1988 o salário mínimo passou a ser um direito assegurado a todos os trabalhadores, incluindo os trabalhadores rurais, que até então nem sempre eram alcançados pela legislação. Mais recentemente, a reforma trabalhista promoveu um processo de fragilização dessa garantia. Embora a informalidade sempre tenha existido, a introdução do trabalho intermitente aprofundou a precarização do direito ao salário mínimo.

Antes, todo trabalhador tinha assegurado o recebimento de, ao menos, um salário mínimo mensal. Com o contrato intermitente, porém, o pagamento passou a ser proporcional às horas efetivamente trabalhadas, o que impede o acesso ao valor integral. É verdade que, desde 1995, as regras de reajuste têm sido instáveis e sujeitas a mudanças. Ainda assim, também é fato que, ao longo de cerca de 30 anos, houve um processo de valorização real do subsídio.

Para referência, na comparação com outros países da América Latina, o Brasil aparece entre os que pagam os menores salários mínimos, em torno de US$ 300. No Uruguai e Chile, por exemplo, o valor fica em torno de US$ 600. Um aspecto singular do caso brasileiro é o uso do salário mínimo como piso da Previdência Social e de programas sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a idosos de baixa renda, além do próprio piso previdenciário — ambos incorporados a partir da Constituição de 1988.

De acordo com o Boletim da Previdência, cerca de 70% dos beneficiários, como aposentados e pensionistas brasileiros recebem até um salário mínimo, que frequentemente constitui a principal renda familiar. Isso produz um impacto relevante sobre o consumo, sobretudo em um país onde parte expressiva da arrecadação do governo vem da tributação sobre o consumo. Vale lembrar que, dado o déficit de consumo das famílias com renda mais baixa, praticamente todo o salário, e respectivos aumentos, tende a retornar à economia por meio do consumo.

Em termos relativos, portanto, não se pode falar apenas em defasagem. O desafio central é definir, em uma sociedade tão desigual como a brasileira, qual parâmetro deve ser usado para medir a subsistência quando o rendimento mínimo não garante condições dignas de vida.

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