Brumadinho: a porta de saída não se cava calado
O rompimento da barragem em Brumadinho fez 7 anos. No dia 25 de janeiro de 2019, morreram 272 pessoas. Vidas ceifadas, sonhos interrompidos, futuros silenciados. Dentre as vítimas estavam Camila e Luiz, nossos filhos, e Fernanda, nossa nora grávida do primeiro neto, Lorenzo. Estavam hospedados na pousada que foi soterrada pelo minério de ferro.
Morreram junto com eles animais, o rio Paraopeba, árvores, casas, lavouras, como se solidários fossem àqueles que perderam suas vidas, além de toda sorte de esperança de pessoas que tinham o seu sustento naquela terra e naquelas águas.
Nesses 7 anos vivemos experiências que não podem ser descritas em palavras, o luto é um processo desorganizado que parte a vida em dois. O antes, que fica estático no passado e o depois, que não se sabe como será reorganizado, tamanha a dor e a desorientação. Nunca pensamos que isso poderia acontecer conosco.
Desde então, na companhia dos associados e voluntários do Instituto Camila e Luiz Taliberti, criado seis meses depois da tragédia, temos honrado a memória não só dos nossos filhos, mas de todas as vítimas.
A partir das investigações técnicas sobre as causas do rompimento, podemos dizer ao mundo que tragédias como essa podem acontecer com qualquer pessoa e que poderia ter sido evitada se não houvesse ganância da empresa pelo aumento de lucro para acionistas e omissão do poder público na fiscalização. Isso traz um outro olhar sobre a morte deles. Um olhar para o futuro, mais responsável e sustentável. Traz a responsabilidade de que é preciso conscientizar a sociedade sobre os danos fatais que a mineração pode causar às pessoas, às comunidades e ao meio ambiente.
Nessa perspectiva, destacamos a desejada transição para energia não poluente e baseada nas terras raras, obtida por meio da mineração de territórios, onde existem pessoas, comunidades e equilíbrio ambiental em perigo, por causar sérias e profundas rupturas sociais, econômicas e ambientais nas comunidades que hoje ocupam esses territórios. É preciso buscar uma solução para os conflitos que já estão surgindo, por exemplo, no Vale do Jequitinhonha. Não se pode aceitar às cegas a riqueza que a exploração desses minerais promete trazer. Riqueza para quem?
Uma das soluções propostas por especialistas que parece ser viável e que propomos que se avance a sua discussão é a implementação do licenciamento social precedendo o licenciamento ambiental. No licenciamento social, as comunidades devem ser informadas do processo de mineração e do impacto em seus territórios. É preciso ter aceitação e apoio da comunidade local para que o projeto de mineração siga adiante.
A crise climática diz respeito à possibilidade de existência de futuro para essa e para as próximas gerações. Se a necessidade de terras raras se posiciona como um novo modus operandi, é preciso ampliar o debate para que não se acentue as desigualdades e a injustiça social e ambiental. O Instituto Camila e Luiz Taliberti prima pela valorização da vida e tudo o que a envolve, como eixo central.
Pensar em um futuro para a humanidade e olhar para a transição para a energia limpa, incluindo a mineração de terras raras, urge acertar as contas com o presente. Tragédias como as de Mariana, Maceió e Brumadinho não podem permanecer impunes, pois são fruto de uma mineração insustentável. A impunidade é a porta aberta para a repetição.
No livro A morte é um dia que vale a pena viver, Ana Cláudia Q. Arantes afirma que “quando morre uma pessoa amada e importante, é como se fôssemos levados à entrada de uma caverna… e a saída não é pela mesma porta por onde entramos, pois não encontraremos a mesma vida que tínhamos antes. … Para sair dessa caverna do luto, é preciso cavar a própria saída. … Existe um trabalho, algo ativo, em direção a uma nova vida.” Só iremos sair dessa caverna como familiares e como sociedade se os culpados pela tragédia forem devidamente responsabilizados e se coletivamente construirmos uma mineração responsável e sustentável.
Como Instituto Camila e Luiz Taliberti, sabemos que restamos vivos para sermos vozes que não se calam. A porta de saída não se cava calado.
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