COP30: conectar as escolas da Amazônia é cuidar do futuro da floresta
Pela primeira vez, uma conferência global do clima aconteceu no coração da Amazônia, um território que não é apenas paisagem, mas casa viva de milhões de brasileiros: crianças, estudantes, professores sejam ribeirinhos, indígenas, quilombolas e populações urbanas que precisam estar conectados com as decisões que moldarão o clima e a economia nas próximas décadas.
Para que essa participação seja possível, há um ponto cego que precisa virar prioridade: a inclusão digital dessa população. Precisamos garantir que os amazônidas possam continuar conectados aos grandes debates sobre o futuro de sua própria região. Sem conectividade, o futuro da floresta seguirá sendo discutido de fora para dentro – com avanços tecnológicos, mas exclusão social.
Quem vive na Amazônia conhece as distâncias, a sazonalidade dos rios e as chuvas que mudam rotas e calendários. As escolas são os órgãos públicos mais capilarizados do país – simbolizam muitos dos desafios. Na maior parte das escolas na Amazônia, diretores ainda gastam dias para resolver tarefas que seus pares nos redutos urbanos do Sudeste resolvem pelo celular em minutos.
Na zona rural de Moju, a mais de 130 quilômetros de Belém, fica a Escola Municipal Nossa Senhora da Conceição, às margens do rio Ubá. Para chegar até lá, é preciso enfrentar longos trechos de estrada de terra e depois seguir de barco. A diretora conta que, até pouco tempo atrás, precisava fazer esse percurso toda vez que precisava entregar documentos, regularizar matrícula, lançar notas no sistema ou até receber o salário. Eram horas de viagem até a cidade, e enquanto isso a escola ficava fechada.
Casos como o de Moju se repetem por toda a Amazônia — e ficam ainda mais graves em municípios mais distantes, como Altamira e Dom Eliseu, também no Pará, onde parte do trajeto pode levar mais de 14 horas entre estrada e rio. Nesses locais, cada deslocamento significa dias sem aula, com escolas que chegam a fechar por uma semana inteira apenas para que gestores consigam resolver tarefas administrativas básicas. Nessas regiões, é como se a escola vivesse em outro tempo – fora da rede, fora das decisões. Não há política pública que consiga chegar a uma população assim.
Essa é a face menos visível da desigualdade: a exclusão digital como barreira à adaptação climática. Enquanto o mundo discute inteligência artificial e transição energética, muitas comunidades e muitos professores das escolas amazônicas ainda lutam para buscar um sinal de celular.
Contudo, quando a conectividade chega na escola, no centro da comunidade, tudo muda. A escola conectada vira âncora de conexão para a comunidade e ações de proteção social.
Conectividade não é luxo tecnológico: é logística de vida cotidiana. É economia de tempo, redução de deslocamentos e, no caso da Amazônia, fortalecimento da cidadania climática — a capacidade de compreender dados, acessar políticas públicas e participar das decisões que afetam o território.
O Brasil avançou muito e deu salto na internet de suas escolas públicas, chegando a quase 70% das escolas com internet de alta velocidade. O desafio agora está na região Norte. Na Amazônia Legal, apenas 62% das escolas públicas têm internet que atende aos parâmetros oficiais com internet de alta velocidade, Wi-Fi e computadores em sala de aula.
Porém já é possível resolver esse cenário. Cidades inteiras, como Moju no interior do Pará, já conseguiram conectar todas as suas escolas, inclusive as mais afastadas que ficam a mais de 4 horas do centro urbano. Secretarias Estaduais como a do Pará, que irá sediar a COP, conseguiram conectar todas as suas escolas ao redor do Estado de proporções gigantescas.
Para garantir que toda a região esteja conectada, o Programa Aprender Conectado do governo federal conta com mais de R$ 3bilhões em recursos para conectar as escolas que mais precisam. O Programa já avançou na conexão de mais de 10 mil escolas públicas distribuídas pelo país e o próximo edital tem como foco as escolas amazônidas em regiões mais afastadas e de difícil acesso. Será um marco para garantir a universalização da internet nas escolas públicas, mas principalmente um presente para muitas comunidades que não precisarão mais se deslocar horas intermináveis para ter acesso a serviços básicos e poderão participar constantemente do debate sobre o futuro da sua própria região.
Na COP30, o mundo discutiu transição energética, bioeconomia e financiamento. Que fique como legado para o Brasil a inclusão digital como pilar de adaptação e justiça climática na Amazônia. Com metas claras, dados públicos e compromisso compartilhado, podemos deixar de prometer e começar a entregar.
A inclusão digital da Amazônia é o caminho para que a transição climática seja não apenas verde, mas justa, conectada e profundamente humana.
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