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Escalada autocrática no mundo

Há sinais perturbadores de que a democracia vem perdendo espaço em todo o mundo
Escalada autocrática no mundo
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“A 3ª onda de autocratização.” (ONG Human Rights Watch)

Relatório pra lá de inquietante. Espalha uma onda de sobressalto nas mentes e corações comprometidos com os ideais democráticos e valores humanísticos que conferem dignidade à aventura da vida. O mapa-múndi deixa à mostra sinais perturbadores de que a democracia vem perdendo espaço, de tempos a esta parte, para o autoritarismo. Os avanços negativistas têm sido em proporção maior do que as conquistas civilizatórias. Vejamos o que, a propósito de tão momentosa questão, aponta estudo da ONG Human Rights Watch, reconhecida internacionalmente por atuação na defesa e proteção dos direitos humanos.

O cenário político global – diz ela – atravessa período de retração que muitos especialistas já classificam como uma “terceira onda de autocratização”. Este registro é complementado pela revelação de que a democracia no mundo retrocedeu a níveis comparáveis aos de 1985. A situação descrita apagou décadas de desenvolvimento obtido no pós-Guerra Fria. Cá estão alguns dados bem elucidativos: cerca de 72% da população mundial — o equivalente a 5,7 bilhões de pessoas — vivem sob regimes autocráticos, uma marca alarmante que reflete a fragilização das instituições em diversos rincões do planeta.

O trabalho da ONG demonstra que, pela primeira vez em mais de duas décadas, o número de regimes autoritários superou o de democracias. São 91 países subjugados por ditaduras, em contraposição a 88 países de regência democrática de diferentes matizes. A ONG assevera que o registro mais inquietante do que vem acontecendo, para o Ocidente, nos últimos anos, é a retração das chamadas “democracias liberais”, consideradas o modelo mais robusto de liberdade. Hoje restam apenas 29 nações do grupo mencionado, o menor número em gerações. O processo de erosão não poupa potências tradicionais. Os indicadores mostram que 54% dos países analisados sofreram declínios em aspectos fundamentais como independência judicial ou integridade eleitoral. Observação curiosa: o instrumento de coerção dos novos autocratas não tem sido o clássico golpe de Estado com tanques nas ruas, mas sim a asfixia gradual da liberdade de expressão, desinformação orquestrada por governos usada para minar a confiança nas urnas e polarizar sociedades.

Apesar do tom sombrio, o relatório destaca pontos de resiliência. O Brasil é citado como exemplo de país que conseguiu levar a cabo processo de recuperação democrática, nadando contra a maré. Paira no ar, visivelmente, um desafio hercúleo para a sociedade de nosso tempo: enquanto 3,1 bilhões de pessoas vivem em países que estão se tornando mais autoritários, apenas cerca de 452 milhões vivem em nações que mostram sinais reais de resistência e vitalidade democrática. O tema reclama novas reflexões.

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