Nova era da tecnologia: a superinteligência bate à porta
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa do futuro para se tornar a espinha dorsal da economia global em 2025. Superamos a fase da IA generativa, que apenas produzia textos e imagens, para consolidar a era da IA agêntica. Hoje, sistemas não apenas respondem a comandos, mas executam tarefas complexas, tomam decisões e operam de forma autônoma em fluxos de trabalho inteiros.
Mustafa Suleyman, chefe de IA da Microsoft, projeta um cenário em que agentes digitais irão gerir o cotidiano humano com supervisão mínima. Contudo, essa fronteira técnica traz um dilema ético que o mercado, por si só, é incapaz de resolver: a quem servirá essa autonomia?
Suleyman defende o conceito de uma superinteligência humanista, sustentando que as grandes corporações interromperiam o desenvolvimento se a tecnologia ameaçasse a segurança global. Embora o posicionamento seja diplomático, a história econômica é implacável ao demonstrar que a autorregulação costuma naufragar onde o lucro se torna imperativo e a concorrência, predatória.
Para que a inteligência artificial seja subordinada aos direitos individuais e à dignidade humana, o debate deve migrar urgentemente das salas de diretoria das Big Techs no Vale do Silício para o centro da soberania nacional e dos fóruns democráticos em nosso país.
No Brasil, o momento é de uma encruzilhada histórica. O avanço do Marco Legal da Inteligência Artificial, PL 2338/2023, no Senado Federal estabelece balizas fundamentais para sistemas de alto risco. A regulação não deve ser vista apenas como um freio, deve ser o trilho que conduz a inovação para o bem comum.
O valor social da IA no Brasil reside na sua capacidade de destravar gargalos estruturais. Dados de 2025 já demonstram que o uso de modelos preditivos no SUS reduziu drasticamente as filas de espera para exames complexos, enquanto na educação básica sistemas adaptativos auxiliam professores na recomposição de aprendizagem pós-pandemia. É nesta aplicabilidade concreta que a tecnologia justifica sua existência, não em recordes técnicos abstratos.
O custo de entrada nessa nova era é proibitivo. A dependência de uma infraestrutura gigantesca de processamento e de capital intensivo concentra o poder tecnológico nas mãos de um punhado de países e corporações.
Se o Brasil não investir em soberania digital, o que envolve desde o fomento a datacenters locais até a proteção de nossa diversidade linguística nos modelos de linguagem, corremos o risco de retroceder a uma condição de colônia digital. Nesse cenário sombrio, exportaríamos dados brutos para importar decisões automatizadas e opacas, enviesadas por realidades que não refletem a nossa complexidade social.
A promessa de uma economia abundante exige a coragem de um novo contrato social. À medida que a automação agêntica atinge o coração de setores produtivos, como análise jurídica, contabilidade e serviços de atendimento, a requalificação profissional e a discussão sobre a renda básica universal deixam de ser utopias acadêmicas para se tornarem imperativos de estabilidade social. A produtividade extraordinária gerada pela máquina precisa ser tributada e redistribuída, sob o risco de aprofundarmos um abismo de desigualdade já insustentável.
A tecnologia só será verdadeiramente poderosa se for humanamente responsável. Isso exige transparência algorítmica e, fundamentalmente, auditorias independentes conduzidas pelo Estado e pela sociedade civil, que não se curvem à lógica estrita do valor de mercado. O Brasil tem o potencial de liderar o Sul Global na exigência de que a ética e a dignidade humana sejam o código-fonte de qualquer algoritmo.
Os empresários, líderes, legisladores, governos e cidadãos precisam firmar um pacto. A superinteligência só terá valor real se for projetada para ampliar as capacidades humanas, nunca para substituí-las ou subjugá-las. O futuro não é algo que nos acontece, é algo que codificamos hoje.
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