NR-1 avança nos riscos psicossociais, mas ignora fator crítico
A partir de maio, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) entra em vigor e obriga empresas a agir sobre riscos psicossociais no trabalho. A atualização da NR-1 representa um avanço relevante ao incorporar a gestão de riscos psicossociais no ambiente corporativo. A medida responde a uma transformação concreta no mundo do trabalho: o adoecimento mental deixou de ser pontual e passou a impactar diretamente a produtividade, os custos operacionais e a sustentabilidade das organizações.
Apesar do avanço, a norma apresenta uma lacuna crítica. Ao tratar fatores como estresse ocupacional, sobrecarga cognitiva e pressão por desempenho, ignora um dos principais determinantes fisiológicos desses processos: o sono.
Estudo da Rand Corporation mostra que a privação de sono custa à economia dos Estados Unidos cerca de US$ 411 bilhões por ano em perda de produtividade. Em outra frente, análises da Harvard Business Review indicam que o presenteísmo – fortemente associado ao cansaço e à exaustão – pode gerar perdas superiores a US$ 150 bilhões anuais nas empresas.
Ainda que não haja mensuração consolidada no Brasil, os sinais já são claros. O país registrou, em 2025, mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, com impacto direto superior a R$ 3,5 bilhões ao ano apenas em benefícios previdenciários.
Trata-se de um desalinhamento entre regulação e evidência científica. A literatura internacional é consistente ao demonstrar que a privação de sono não apenas acompanha o estresse, mas o intensifica, prolonga e, em muitos casos, o desencadeia. Na prática, isso significa que a gestão de riscos psicossociais pode estar atuando sobre os efeitos, sem alcançar suas causas estruturais.
Organizações têm investido em programas de bem-estar, apoio emocional e gestão do estresse. No entanto, mantêm modelos operacionais baseados em jornadas extensas, hiperconectividade e baixa previsibilidade de descanso — fatores que comprometem diretamente a qualidade do sono e, consequentemente, a capacidade de regulação emocional e cognitiva dos trabalhadores.
O impacto extrapola a saúde individual. Estudos internacionais apontam que a privação de sono está associada à redução de produtividade, aumento de erros, maior incidência de acidentes e elevação de custos operacionais. Em setores de alta demanda cognitiva, esse efeito se traduz em risco direto para a segurança e para a tomada de decisão.
Do ponto de vista de gestão, trata-se de um risco subdimensionado. Ao não incorporar o sono como variável explícita, empresas podem estruturar políticas formalmente adequadas à NR-1, mas insuficientes do ponto de vista biológico e operacional.
Essa desconexão tende a ganhar relevância nos próximos anos, seja pelo avanço da agenda de saúde mental nas organizações, seja pelo aumento da judicialização relacionada a condições de trabalho.
Mais do que uma pauta de bem-estar, o sono precisa ser tratado como variável estratégica de gestão de risco, com impacto direto em desempenho, segurança e eficiência. Empresas que anteciparem esse movimento, incorporando a saúde do sono em suas políticas internas, terão maior capacidade de mitigar riscos psicossociais de forma consistente, além de fortalecer indicadores de produtividade e governança.
A NR-1 avança, mas ainda não captura integralmente a complexidade do problema. Ignorar o sono é, na prática, manter ativa uma parcela relevante do risco que se pretende controlar.
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