Por que parte da advocacia brasileira ainda resiste ao uso da inteligência artificial?
Muita gente ainda acha que a Inteligência Artificial na advocacia é “coisa de escritório grande” ou um luxo distante. Mas quem pensa assim já está perdendo competitividade. Tenho mergulhado em discussões intensas sobre inovação, governança e tecnologia jurídica e o contraste entre o que se debate nos palcos e o que ainda se pratica no dia a dia de muitos escritórios é gritante.
Advogados de pequenos e médios escritórios ou de departamentos jurídicos de menor porte continuam presos a uma estrutura de custos e a uma mentalidade operacional que beiram o anacronismo. Tenho presenciado, com espanto, escritórios médios que ainda têm um exército de secretárias e estagiários com uma missão primária: retornar andamentos processuais. Enquanto isso, ferramentas de IA generativa e automação jurídica acessíveis já poderiam resolver essa tarefa de forma integral, com custo quase nulo e entregas instantâneas.
É preciso ser polêmico para ser honesto: essa estrutura é um fardo financeiro desnecessário e uma falha estratégica. O custo de manter uma equipe inteira focada em tarefas repetitivas é, hoje, o preço que você paga por ignorar a IA. É como insistir em iluminar o escritório com velas, quando o mundo já funciona com eletricidade. A IA chegou e não terá volta. Tudo vai se adequar ao seu redor e quem não acompanhar, será substituído: não pela máquina, mas pelo colega que souber usá-la.
Há, também, aqueles escritórios que contratam automações ou plataformas de IA apenas para dizer que “estão inovando”. Criam fluxos automáticos para envio de andamentos a clientes, mas cometem o erro mais perigoso: acreditam que a tecnologia é autônoma e delegam à IA o que é indelegável: a responsabilidade humana.
Já presenciei clientes recebendo retornos automáticos com mensagens do tipo: “O advogado perdeu o prazo e foi declarado revel”. O sistema apenas replicou o que leu, sem interpretação e o cliente, que é leigo, entrou em pânico. O advogado, é claro, correu para explicar o mal-entendido, mas o relacionamento de confiança, que é o ativo mais valioso da advocacia, já havia se perdido.
A inovação não é simplesmente usar tecnologia; é implantar governança exponencial. É compreender que a IA resolve o trabalho braçal, mas o papel intelectual, ético e consultivo continua sendo do advogado. Prompts precisam ser revisados. Resultados precisam ser interpretados. A IA é a ferramenta e não o substituto da inteligência humana.
Enquanto alguns advogados ainda contam estagiários, outros já contam oportunidades. A revolução da consultoria jurídica está em curso: a IA generativa analisa contratos em segundos, identifica riscos de compliance antes invisíveis, cria padrões de governança e reduz custos de forma exponencial. E isso não é “futuro”: é presente.
Se antes o valor do jurídico estava em responder “o que aconteceu”, agora o valor está em antecipar “o que pode acontecer”. É a era do jurídico que gera valor, em que o advogado deixa de ser operador de processos para se tornar estrategista de negócios.
E esse é justamente o ponto: o desafio da montagem das equipes jurídicas hoje não é cortar pessoas, mas deslocar pessoas. Deslocar secretárias e estagiários de tarefas braçais para funções intelectuais, de apoio estratégico, de análise preditiva, de uso inteligente da IA. O estagiário que “puxa andamento” deveria estar, munido de IA, fazendo jurimetria preditiva do escritório. A secretária que agenda audiências deveria estar aprimorando fluxos automatizados e revisando comunicações de clientes.
A Inteligência Artificial é a nova eletricidade. No início, também houve quem dissesse que a luz não era necessária, que o candeeiro resolvia. Mas a eletricidade não apenas iluminou: ela redefiniu o mundo. Mudou as fábricas, o comércio, o transporte, o lazer e, inevitavelmente, o trabalho. É exatamente isso que a IA está fazendo agora com o Direito. E, assim como no passado, quem insistir em permanecer no escuro será simplesmente esquecido.
Ouça a rádio de Minas