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Por que parte da advocacia brasileira ainda resiste ao uso da inteligência artificial?

Quem insistir em permanecer no escuro será simplesmente esquecido
Por que parte da advocacia brasileira ainda resiste ao uso da inteligência artificial?
Foto: Reprodução Adobe Stock

Muita gente ainda acha que a Inteligência Artificial na advocacia é “coisa de escritório grande” ou um luxo distante. Mas quem pensa assim já está perdendo competitividade. Tenho mergulhado em discussões intensas sobre inovação, governança e tecnologia jurídica e o contraste entre o que se debate nos palcos e o que ainda se pratica no dia a dia de muitos escritórios é gritante.

Advogados de pequenos e médios escritórios ou de departamentos jurídicos de menor porte continuam presos a uma estrutura de custos e a uma mentalidade operacional que beiram o anacronismo. Tenho presenciado, com espanto, escritórios médios que ainda têm um exército de secretárias e estagiários com uma missão primária: retornar andamentos processuais. Enquanto isso, ferramentas de IA generativa e automação jurídica acessíveis já poderiam resolver essa tarefa de forma integral, com custo quase nulo e entregas instantâneas.

É preciso ser polêmico para ser honesto: essa estrutura é um fardo financeiro desnecessário e uma falha estratégica. O custo de manter uma equipe inteira focada em tarefas repetitivas é, hoje, o preço que você paga por ignorar a IA. É como insistir em iluminar o escritório com velas, quando o mundo já funciona com eletricidade. A IA chegou e não terá volta. Tudo vai se adequar ao seu redor e quem não acompanhar, será substituído: não pela máquina, mas pelo colega que souber usá-la.

Há, também, aqueles escritórios que contratam automações ou plataformas de IA apenas para dizer que “estão inovando”. Criam fluxos automáticos para envio de andamentos a clientes, mas cometem o erro mais perigoso: acreditam que a tecnologia é autônoma e delegam à IA o que é indelegável: a responsabilidade humana.

Já presenciei clientes recebendo retornos automáticos com mensagens do tipo: “O advogado perdeu o prazo e foi declarado revel”. O sistema apenas replicou o que leu, sem interpretação e o cliente, que é leigo, entrou em pânico. O advogado, é claro, correu para explicar o mal-entendido, mas o relacionamento de confiança, que é o ativo mais valioso da advocacia, já havia se perdido.

A inovação não é simplesmente usar tecnologia; é implantar governança exponencial. É compreender que a IA resolve o trabalho braçal, mas o papel intelectual, ético e consultivo continua sendo do advogado. Prompts precisam ser revisados. Resultados precisam ser interpretados. A IA é a ferramenta e não o substituto da inteligência humana.

Enquanto alguns advogados ainda contam estagiários, outros já contam oportunidades. A revolução da consultoria jurídica está em curso: a IA generativa analisa contratos em segundos, identifica riscos de compliance antes invisíveis, cria padrões de governança e reduz custos de forma exponencial. E isso não é “futuro”: é presente.

Se antes o valor do jurídico estava em responder “o que aconteceu”, agora o valor está em antecipar “o que pode acontecer”. É a era do jurídico que gera valor, em que o advogado deixa de ser operador de processos para se tornar estrategista de negócios.

E esse é justamente o ponto: o desafio da montagem das equipes jurídicas hoje não é cortar pessoas, mas deslocar pessoas. Deslocar secretárias e estagiários de tarefas braçais para funções intelectuais, de apoio estratégico, de análise preditiva, de uso inteligente da IA. O estagiário que “puxa andamento” deveria estar, munido de IA, fazendo jurimetria preditiva do escritório. A secretária que agenda audiências deveria estar aprimorando fluxos automatizados e revisando comunicações de clientes.

A Inteligência Artificial é a nova eletricidade. No início, também houve quem dissesse que a luz não era necessária, que o candeeiro resolvia. Mas a eletricidade não apenas iluminou: ela redefiniu o mundo. Mudou as fábricas, o comércio, o transporte, o lazer e, inevitavelmente, o trabalho. É exatamente isso que a IA está fazendo agora com o Direito. E, assim como no passado, quem insistir em permanecer no escuro será simplesmente esquecido.

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