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Tarifaço americano e mercado premium

Por sua natureza e perfil de consumidor, o mercado premium se mostrou mais resiliente
Tarifaço americano e mercado premium
Foto: Divulgação Emater-MG

Quando Donald Trump anunciou o pacote de tarifas sobre produtos brasileiros, em julho de 2025, o temor de uma hecatombe nas nossas exportações tomou o noticiário. Hoje, dados revelam uma realidade menos conturbada: o impacto foi real, mas segmentos como o de produtos premium e de alto valor agregado demonstraram resiliência notável.

A redução parcial das tarifas em novembro, para 238 produtos brasileiros, trouxe alívio para itens da cadeia agroindustrial como carnes, café, cacau e frutas. Para a CNI, os produtos contemplados representam 37% das exportações para os EUA. Para a Amcham Brasil, a pressão inflacionária sobre os americanos foi determinante para essa flexibilização, com 59% da população responsabilizando Trump pela alta dos alimentos.

Porém, o comportamento do mercado premium revela uma dinâmica que merece atenção. Produtos de alta qualidade, focados em consumidores de maior poder aquisitivo, tendem a ser menos sensíveis a variações de preço, fenômeno chamado de demanda inelástica. Para carnes especiais porcionadas em 250 gramas, cafés de origem certificada ou outros itens diferenciados, o acréscimo tarifário — embora significativo em termos percentuais — representa um impeditivo menor ao consumo.

A lógica é simples: para o consumidor Triple A, a diferença entre pagar oito ou doze dólares por uma porção individual de carne premium não altera a decisão de compra. A exclusividade, a procedência e a qualidade permanecem como fatores determinantes, relativizando o impacto das sobretaxas.

O caso específico da carne suína

Não é revelador que a carne suína brasileira tenha recebido pouca atenção no debate sobre o tarifaço. A explicação está na estrutura do mercado americano: por ser um grande produtor de suínos, sua importação é reduzida e concentrada em cortes como a costelinha. Isso cria uma janela de oportunidades para produtos premium, que não competem com a commodity americana.

Para empresas que planejam iniciar exportações em 2026, essa experiência recente indica que produtos com proposta de valor bem definida navegam com mais segurança em ambientes de volatilidade tarifária. Nesse contexto, é estratégico para uma marca começar pelo mercado doméstico, consolidar operações e expandir gradualmente para o exterior.

Nosso setor exportador mostrou capacidade de adaptação ao redirecionar-se para países como Ásia e Europa, amortizando as perdas com os EUA. Para produtos premium, essa diversificação é ainda mais viável, já que a demanda global por itens do tipo mantém-se aquecida e independente das flutuações tarifárias.

O mercado premium brasileiro tem demonstrado que qualidade, exclusividade e posicionamento estratégico podem blindar operações contra turbulências comerciais. O tarifaço americano impacta as exportações brasileiras, mas revela que nem todos os setores são igualmente vulneráveis a choques tarifários. O mercado premium, por sua natureza e perfil de consumidor, se mostrou mais resiliente, contrariando previsões mais alarmistas e abrindo perspectivas para quem souber posicionar seus produtos nesse segmento.

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