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Venezuela e Minas: dois destinos opostos para o capital

Contraste é mais do que um caso latino-americano
Venezuela e Minas: dois destinos opostos para o capital
Foto: Reprodução Adobe Stock

A Venezuela abriga as maiores reservas de petróleo do mundo. Ainda assim, segundo o CEO da ExxonMobil, explorar petróleo no país hoje é inviável. Não por falta de recursos. Nem por ausência de demanda. Mas porque, ao longo do tempo, ativos foram confiscados, contratos foram desfeitos e regras mudaram no meio do jogo. Perdeu-se a credibilidade.

Esse contraste é mais do que um caso latino-americano. Ele revela uma verdade sobre investimentos produtivos: o capital não foge do risco, mas foge da arbitrariedade. Onde não há garantias de que compromissos serão respeitados, um modelo financeiro vira ficção.

É por isso que economias com ativos extraordinários às vezes se comportam como desertos de investimento, enquanto outras, menos dotadas de recursos naturais, prosperam. O que as separa, por vezes, é a institucionalidade.

Costumamos explicar o subdesenvolvimento pela falta de capital, educação de baixa qualidade, por falhas de mercado ou por juros elevados. Tudo isso importa. Mas, em muitos lugares, o capital existe, o mercado está lá e o retorno é atraente. Ainda assim, o investimento não vem.

Nos anos 1980, o economista Earl Thompson cunhou o termo “custos de cooperação”: os custos invisíveis de comunicar, coordenar e, sobretudo, sustentar compromissos ao longo do tempo. São custos que não aparecem em planilhas, mas determinam se um projeto começa ou morre.

Todo investimento relevante é sequencial. Primeiro vem a decisão. Depois, licenças. Em seguida, infraestrutura, energia, fornecedores, logística, pessoas. Cada etapa cria dependência da anterior. Em ambientes institucionais frágeis, cada etapa também cria uma oportunidade de captura oportunista. Exigências que mudam, interpretações que se alteram, condições que se tornam mais onerosas depois que o capital já está comprometido. Quando esse risco se torna claro, o investidor prefere não começar.

É assim que surgem os projetos que “fazem todo sentido” no papel, mas nunca se materializam. Sem mecanismos que garantam compromissos ao longo do tempo, até sociedades ricas em ativos se tornam inviáveis. É nesse ponto que o Estado importa. Não como investidor, nem como distribuidor de incentivos, mas como engenheiro institucional, capaz de reduzir os custos de cooperação entre agentes públicos e privados ao gerar previsibilidade, clareza de regras e estabilidade regulatória.
É aqui que o contraste entre Venezuela e Minas Gerais ganha forma.

Minas também tem ativos em energia, possui ativos na mineração e agroindústria, além de localização estratégica. Mas o que explica a escala e a diversidade dos investimentos recentes não é isso. É a construção deliberada de um ambiente que reduz o custo de cooperação entre o setor público e o privado. Um arranjo em que há ponto focal, articulação entre órgãos, previsibilidade de processos e acompanhamento ao longo de todo o ciclo do projeto.

Nos últimos sete anos, Minas Gerais atraiu mais de R$ 530 bilhões em investimentos, uma média anual cerca de sete vezes superior à do período anterior. Mais importante do que o volume em si é o padrão. São projetos que avançam porque o risco institucional caiu. Não porque o ambiente seja perfeito (nenhum é), mas porque se tornou legível. E legibilidade institucional é um ativo valioso na decisão de investir.

No fim das contas, o capital busca lugares onde promessas são críveis e compromissos são sustentáveis. A verdadeira vantagem competitiva de um território não está apenas em seus ativos produtivos, mas na sua capacidade institucional de coordenar, cumprir e dar essa previsibilidade.

No mundo real, capital não persegue slogans nem promessas. Ele persegue previsibilidade. Territórios que constroem instituições capazes de sustentar compromissos ao longo do tempo atraem investimento. Os demais acumulam ativos e desperdiçam oportunidades.

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