Café gelado: quando o café deixou de ser apenas uma xícara quente.
No Brasil, café sempre foi sinônimo de bebida quente. Está na xícara do café da manhã, na pausa do trabalho, depois do almoço e naquele cafezinho oferecido a quem chega. Mas, aos poucos, uma mudança vem acontecendo: o café está ganhando gelo e novas formas de preparo e consumo.
E não parece ser apenas uma moda passageira.
A pesquisa “Evolução dos Hábitos e Preferências dos Consumidores de Café no Brasil”, encomendada pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) ao Instituto Axxus, mostra que o percentual de consumidores que bebem café gelado com outros ingredientes passou de 7%, em 2023, para 9%, em 2025.
O número ainda é pequeno diante da dimensão do consumo tradicional, mas revela uma mudança interessante: o café começa a ocupar espaços que antes não pertenciam a ele.
E é justamente entre os mais jovens que essa transformação fica mais evidente. A pesquisa mostra que 47% dos consumidores de 18 a 24 anos frequentam cafeterias, contra 39% considerando o total da população. Para Sergio Parreiras Pereira, pesquisador do Centro de Café do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e responsável pelo estudo, essa geração se relaciona com o café de maneira menos tradicional, buscando conveniência, experiências sensoriais e estilo de vida.
O movimento também aparece com força fora do Brasil. A Nestlé Global aponta que o café gelado já representa uma em cada três xícaras consumidas fora de casa, especialmente entre Millennials e Geração Z. O dado é global, mas ajuda a dimensionar o tamanho da transformação que vem acontecendo na maneira de consumir café.
Na Europa, o crescimento também é perceptível. Um levantamento da Innova Market Insights, aponta a expansão da categoria de cafés gelados no continente, com Reino Unido, Alemanha e Espanha entre os principais mercados em lançamentos de produtos. Na Suécia, uma pesquisa realizada pela Kantar em 2024 revelou que 15% dos consumidores de café haviam tomado café gelado no mês anterior. Entre os jovens de 18 a 29 anos, o índice chegava a 36%.
Mas talvez a principal mudança não esteja na temperatura da bebida. Está na ocasião de consumo.
Durante décadas, o café esteve fortemente associado ao despertar, ao café da manhã, ao pós-almoço e à pausa no trabalho. Agora, ele também aparece como uma bebida de lazer, refresco, experiência e socialização. Um espresso servido sobre gelo ou um cold brew não são simplesmente versões frias do café tradicional. Eles mudam a percepção sobre quando, onde e por que tomar café.
O próprio crescimento das bebidas geladas acompanha uma transformação mais ampla do mercado: consumidores mais jovens experimentam mais, valorizam novas experiências e descobrem bebidas também pelas redes sociais.
Talvez, portanto, o futuro do café gelado não esteja em substituir a xícara quente. Está em fazer o contrário: aumentar o número de momentos em que escolhemos tomar café.
O café deixa de ser apenas aquela bebida quente que acompanha a manhã e passa a ocupar novas ocasiões. E quando isso acontece, o gelo não é apenas um ingrediente. É um sinal de que o jeito de consumir café também está mudando.
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