A água que pedimos, o caos que criamos
Durante meses reclamamos da falta de chuva, mas foi só ela começar e já mudamos de ideia.
Quando a água que tanto pedimos chega, ela revela as mazelas escondidas de nossas cidades. De repente, alguns minutos de temporal derrubam a energia e a internet, inviabilizam o uso de computadores e celulares, os semáforos se apagam, as ruas alagam, pessoas em situação de risco perdem o sono e o trânsito trava. Nada disso é novo. Todos esses problemas estavam ali há meses, anos, décadas. Mas a chuva rompe o silêncio que esperava apenas uma oportunidade para gritar.
E seus gritos revelam os problemas estruturais, a falta de adaptação à questão climática, a insistência em soluções comprovadamente ineficazes e a incapacidade de adotar soluções baseadas na natureza e em seus ciclos. Os eventos climáticos já são parte da rotina, embora ainda existam os atrasados que acham que eles não existem. Como dizia o filósofo, a verdade não deixa de ser verdade porque você não acredita nela. Vivemos em um contexto em que as pessoas estão vulneráveis, porque as redes elétricas, o sistema de drenagem e os sistemas básicos de suporte à vida em sociedade são insuficientes e despreparados.
Mas não são apenas as mudanças climáticas as responsáveis. Continuamos impermeabilizando o solo, ocupando de forma desordenada o tecido urbano, sustentando uma infraestrutura envelhecida e ultrapassada, enfrentando a natureza em vez de nos alinharmos a ela. Tudo isso forma um conjunto que transforma qualquer chuva em potencial caos. O que antes era exceção, agora é regra, e minha maior preocupação é que as pessoas se acostumem com isso.
E a energia necessária para tratar as causas e resolver os problemas se esvai na ignorância e no negacionismo de quem, mesmo diante de evidências claras, se opõe a reconhecer a verdade. Eu poderia dizer que esse cenário tem tudo a ver com sustentabilidade mas, na realidade, é mais do que isso: esse cenário exige sustentabilidade, exige que criemos cidades mais humanas, sustentáveis e inteligentes.
E essas cidades não se fazem apenas com tecnologia. É preciso planejamento urbano, investimento, adoção de soluções que entendam e respeitem os ciclos naturais, além da integração entre infraestrutura cinza e infraestrutura verde. Falta pensar! E, como dizia minha mãe: “Quando a gente não pensa, o corpo paga.” Até lá, o ciclo se repetirá: seca prolongada, ansiedade pela chuva, alívio momentâneo, caos urbano.
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