Caminhos sustentáveis

Carnaval passou, lixo ficou

Toneladas de resíduos se acumulam nas ruas após a passagem dos blocos durante o Carnaval

O Carnaval de Belo Horizonte já não é mais aquele evento tímido de duas décadas atrás. O que começou com blocos pequenos, quase familiares, transformou-se em um dos maiores carnavais de rua do Brasil. A cidade atraiu, em 2026, 6,5 milhões de foliões, o maior público da sua história e consolidou-se entre os maiores carnavais do País, movimentando a economia, fortalecendo a cultura local e projetando BH no mapa nacional da folia. Mas, junto com a festa, cresce também um problema que insiste em permanecer muito depois que os tambores silenciam: o lixo.

A cada ano, toneladas de resíduos se acumulam nas ruas após a passagem dos blocos. Garrafas plásticas, copos descartáveis, latas, embalagens de alimentos, glitter, restos de fantasias e uma infinidade de itens que, embora usados por minutos, podem permanecer no ambiente por décadas ou séculos. O plástico de garrafas PET leva cerca de 400 anos para se decompor. O alumínio das latas pode durar até 200 anos. O glitter, feito de microplásticos, não se decompõe totalmente e segue contaminando rios e oceanos. Mesmo o papel, quando misturado à chuva e a resíduos orgânicos, perde a reciclabilidade e se transforma em rejeito.

Esse ano, segundo dados da PBH, foram recolhidas 1.100 toneladas de lixo, sendo apenas 36 toneladas recicladas. Apesar dos avanços, a cidade ainda recicla muito menos do que poderia e a maior parte do material recolhido não volta para a cadeia produtiva, seja por contaminação, seja por falta de triagem adequada, seja pela ausência de integração entre prefeitura, catadores e empresas. O resultado é previsível: aterros sobrecarregados, rios mais poluídos e uma cidade que, dias depois da festa, ainda convive com os rastros de um consumo acelerado e pouco responsável. É nesse momento que a economia circular precisa voltar ao centro do debate.

O problema não é a geração de resíduos em si, porque toda atividade humana gera algum tipo de descarte. O problema é a forma leniente como o poder público e a iniciativa privada ainda tratam a circularidade. Falta planejamento para reduzir o uso de descartáveis, falta incentivo para embalagens retornáveis, falta estrutura para coleta seletiva em grandes eventos, falta integração com cooperativas, falta exigência de responsabilidade compartilhada com as marcas que lucram durante a festa.

O Carnaval é uma celebração vibrante, democrática e essencial para a identidade de Belo Horizonte, mas ele também é um espelho que revela o quanto ainda estamos distantes de uma cidade que entende o lixo como recurso e não como problema. Se queremos que a festa continue crescendo sem deixar um rastro de lixo que durará séculos para deixar de existir, precisamos abandonar a lógica do descarte e abraçar de vez a economia circular. Porque o Carnaval dura quatro dias, mas o impacto positivo de uma cidade capaz de transformar lixo em riqueza pode durar uma eternidade.

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