Caminhos sustentáveis

Olimpíadas de Inverno em tempos de mudanças climáticas

Na edição deste ano, sediada pela Itália, cerca de 85% da neve utilizada foi artificial

As Olimpíadas de Inverno nasceram em 1924, em Chamonix, em um cenário de neve abundante e temperaturas rigorosas. Nessa época, todas as modalidades aconteciam ao ar livre e dependiam exclusivamente do frio natural.

Um século depois, o quadro mudou radicalmente: o aquecimento global transformou o inverno em um recurso instável, e aquilo que era garantido pela natureza agora precisa ser produzido por máquinas. Na Olímpiada de 2026, sediada pela Itália, estima-se que 85% da neve utilizada é artificial.

O que assusta não é o fato em si, mas a proporção. Várias edições dos jogos olímpicos de inverno utilizaram neve artificial. Para se ter uma ideia, Innsbruck, Áustria, em 1964, foi a primeira que precisou recorrer a esse mecanismo para evitar o cancelamento de provas. A parte curiosa é que naquela época, o exército austríaco foi mobilizado para transportar toneladas de neve natural das montanhas.

Desde então, a dependência do mecanismo artificial deixou de ser exceção e passou a ser a regra; desde 2014, todas as edições dos jogos olímpicos contaram com índices de neve artificial superiores a 80% do total utilizado. Sochi 2014, 80%, PyeongChang 2018, 98%; Pequim 2022, 100%; e Milão-Cortina 2026, 85%.

Uma proporção tão grande de neve artificial traz consequências. A organização da edição deste ano precisou produzir 2,4 milhões de metros cúbicos de neve, o que consumiu 946 milhões de litros de água. Claro que isso tem impactos ambientais significativos, a quantidade de água utilizada pressiona os ecossistemas e muitos deles estão em situações críticas. Além disso, a água não se transforma em neve naturalmente, é preciso consumir uma quantidade muito grande de energia para fazer isso acontecer e boa parte dessa energia é gerada a partir de combustíveis fósseis.

O problema vai além do aspecto ambiental. A neve artificial é mais densa e dura, isso altera o ambiente de competição, interfere na performance dos atletas e aumenta o risco de lesões. Do ponto de vista institucional, o número de locais capazes de sediar com segurança os jogos olímpicos de inverno está diminuindo rapidamente. Entre 1981 e 2010, 87 regiões eram consideradas climaticamente confiáveis e a expectativa é que em 2050, esse número caia mais de 40%.

O impacto da diminuição de neve também gera problemas sociais importantes. A neve funciona como um reservatório natural de água, liberando-a gradualmente ao longo do ano. Se ela diminui, diminui a vazão dos rios, o acesso a água, principalmente de populações vulneráveis. Do ponto de vista econômico, ocorrem prejuízos ao turismo de montanha.

As Olimpíadas de Inverno são um símbolo poderoso. Elas mostram, de forma concreta, que a crise climática não é um problema distante, mas uma força que já remodela tradições, economias e modos de vida. Se até o inverno precisa ser fabricado, provavelmente é porque precisamos mudar algo na nossa relação com o planeta.

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