Caminhos sustentáveis

O que o Danúbio pode ensinar ao mundo?

Experiência europeia com os rios em centros urbanos dialoga com desafios brasileiros

O Danúbio é mais do que um rio europeu. Com 2.850 quilômetros, atravessa 10 países, corta quatro capitais e sustenta cerca de 80 milhões de pessoas. É a via navegável interior mais longa da União Europeia, rota estratégica para transporte de cargas e base agrícola há quase dois milênios. Sua relevância histórica, econômica e ecológica faz dele um termômetro da relação entre sociedades humanas e sistemas naturais.

Durante grande parte do século XX, a Europa tentou “domar” o Danúbio com diques, barragens e canalizações, comprimindo suas águas e eliminando a maior parte das planícies de inundação. O objetivo era conter cheias, estabilizar margens e proteger cidades. Mas a natureza respondeu: em 2013, o rio atingiu seu maior nível já registrado, avançando com a força acumulada por décadas de obras que impediram sua expansão natural. A água ganhou velocidade e energia, transformando risco frequente em risco catastrófico. Ao mesmo tempo, o Delta do Danúbio sofria com a falta de sedimentos, levando ao recuo da costa, perda de biodiversidade e degradação de ecossistemas.

Diante desse cenário, a Europa iniciou uma mudança de paradigma. Em vez de controlar o rio, passou a integrá-lo de forma mais orgânica ao território, ampliando áreas verdes, restaurando planícies de inundação e recuperando zonas úmidas. Essas intervenções permitem que o rio se expanda e dissipe energia naturalmente, ao mesmo tempo em que oferecem benefícios diretos à população: melhora da qualidade do ar, redução de ilhas de calor, mais espaços de convivência, estímulo à atividade física, fortalecimento da saúde mental e maior resiliência climática. Programas transnacionais passaram a priorizar restauração ecológica, redução da poluição e gestão integrada das águas, reconhecendo que rios não respeitam fronteiras e que cidades mais verdes são também mais seguras e agradáveis.

A experiência europeia dialoga com desafios brasileiros. Aqui, a resposta às cheias ainda se apoia sobretudo em obras estruturais, como canalizações e barragens, que muitas vezes deslocam o problema em vez de resolvê-lo. A urbanização acelerada e a impermeabilização ampliam a vazão dos rios e intensificam eventos extremos, especialmente no Sul, onde variações de nível podem ultrapassar seis metros em um único dia. Ao estreitar rios e ocupar várzeas, criamos sistemas frágeis, caros e vulneráveis.

O Danúbio ensina que rios não são inimigos a conter, mas sistemas vivos que precisam de espaço. Restaurar áreas alagáveis, proteger zonas úmidas, respeitar o leito maior e adotar uma governança integrada são caminhos mais eficazes, resilientes e sustentáveis do que simplesmente erguer novos diques.

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