Feminicídio e a culpabilização das mulheres
“Mas também, foi se envolver com bandido”. “Tem mulher que gosta de uma aventura”. Os comentários nas páginas de notícias escancaram como ainda é comum a culpabilização das mulheres – mortas – vítimas de feminicídio no Brasil.
Feminicídio é o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres. O nome importa porque revela a motivação: controle, posse, punição. A maioria dessas mortes acontece dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-parceiros. O Brasil registrou 1.470 casos em 2025, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. São quatro mulheres mortas por dia, o maior número desde que este crime passou a ser registrado com a devida nomenclatura, em 2015.
Antes do fim, muitos destes crimes seguem um roteiro conhecido: humilhação, isolamento, dependência econômica, ameaça, agressão, o que tem sido usado como precedente para culpabilizar as mulheres, por se manterem em relações nas quais sua vida estaria em risco. O que pouco se fala é como a escalada de violência nos últimos anos, paradoxalmente, tem acompanhado o avanço da autonomia feminina.
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De um lado, mulheres, passando a escolher, ganhar dinheiro, dizer não e, inclusive, tentando abandonar relacionamentos abusivos De outro, homens, muitos destes, pessoas comuns, sem histórico de violência, mas com enormes dificuldades para lidar com frustrações, acostumados a enxergar as mulheres como uma espécie de acessório, uma extensão da própria existência.
Estudos mostram que momentos de ruptura ou afirmação de autonomia, como pedir separação, mudar de emprego ou conquistar independência financeira, aparecem com frequência nos históricos que antecedem o feminicídio, não porque a autonomia provoque a violência, mas porque ela desafia modelos de masculinidade baseados na posse e na hierarquia.
Como trabalho e remuneração são fatores centrais para romper relações abusivas, a autonomia econômica torna-se um eixo decisivo de proteção. É por isso que as empresas que desejam manter ou ampliar o número de mulheres no quadro de funcionários não podem se manter à margem dessa discussão. Além de promover diálogos e sensibilização sobre o tema, é importante oferecer políticas que contribuam para a proteção de mulheres em situação de violência.
Ninguém entra em um relacionamento acreditando que pode acabar sem a própria vida. O feminicídio não é culpa da vítima, mas um espelho de uma sociedade, que segue contabilizando números de muitas vidas interrompidas, que refletem um único cenário: o nosso fracasso coletivo em proteger as mulheres.
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