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‘Não me representa’: entenda o que há por trás da onda de mulheres que não se identificam com o feminismo

Rejeição a rótulos pode desconsiderar o valor das conquistas e da luta contínua pela igualdade feminina

“Não me representa”. Foi assim que Suzana, 43 anos, se posicionou frente a um post supostamente feminista na rede social. A afirmação parecia trazer consigo um certo alívio, de quem se descola de um rótulo incômodo, e carregava também a tentativa de afirmar uma identidade própria diante de um debate coletivo.

Mas o que exatamente está sendo rejeitado quando uma mulher diz que o feminismo não a representa?

Parte dessa recusa é compreensível. O feminismo é um campo de disputas, atravessado por correntes distintas, por prioridades que nem sempre convergem e por vozes que, em alguns momentos, parecem falar apenas para si mesmas. Há erros, há excessos, há distanciamentos reais da vida cotidiana de muitas mulheres.

Há também uma comunicação que, por vezes, se torna inacessível ou pouco acolhedora. Tudo isso gera ruído. E o ruído afasta. Mas é importante compreender que essa divergência de perspectivas não
é necessariamente uma falha, mas um ponto fundamental do próprio feminismo, que prega, entre outras coisas, a liberdade feminina, inclusive para discordar.

No entanto, há uma diferença significativa entre criticar um movimento e se desresponsabilizar por ele. Quando uma mulher desmerece o movimento feminista por completo, é como se ela mesma afirmasse que rejeita a ideia de igualdade, autonomia e dignidade feminina, conquistas alcançadas por meio de décadas de lutas de muitas mulheres.

Não se identificar com estereótipos construídos sobre o que seria ser feminista, é normal, pois na realidade não há um padrão único a ser seguido. O problema começa quando essa recusa se ancora em uma perspectiva puramente individual, como se a experiência pessoal fosse suficiente para invalidar uma construção coletiva.

A história mostra que movimentos guiados exclusivamente por visões individuais, descoladas de qualquer compromisso com o bem comum, tendem a produzir distorções graves. Em sua forma mais extrema, essa lógica já sustentou projetos como o nazismo, que se alimentou de uma noção radical de pertencimento e
exclusão baseada em interesses particulares que tomaram proporções de verdades absolutas. Estamos diante de um padrão perigoso.

O feminismo, goste-se ou não de suas múltiplas faces, é apontado como um dos movimentos sociais mais bem-sucedidos da história moderna, por ter produzido transformações concretas e mensuráveis ao longo do tempo. O direito ao voto, o acesso à educação, a inserção no mercado de trabalho, a ampliação de direitos civis e reprodutivos, a tipificação de violências que antes eram naturalizadas. Nada
disso surgiu espontaneamente. Foram conquistas construídas, sustentadas e ampliadas por gerações de mulheres organizadas – coletivamente.

Nenhum movimento dessa amplitude será capaz de nos representar integralmente, por isso, sigamos atentas e críticas. O feminismo precisa ser tensionado, questionado, revisado. Precisa ouvir mulheres que não se veem contempladas, precisa reconhecer suas limitações e ajustar suas práticas.

Divergências são sinais de vitalidade, não de fracasso. E por isso é importante que esteamos atentas ao risco de transformar a divergência em negação absoluta, que deslegitima todo um histórico de luta daquelas que vieram antes de nós.

Lembremos que os direitos não são permanentes. Eles exigem manutenção, vigilância e participação. Dito isso, toda mulher precisa refletir sobre “a quem interessa que ela se distancie da luta feminista e da manutenção dos seus próprios direitos?”

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