Economia para Todos

Condorcet e a terceira via

Cenário de Condorcet manifesta-se na fragmentação das preferências

No século XVIII, o Marquês de Condorcet, um matemático e filósofo que via na lógica a salvação para a democracia, identificou uma falha sistêmica que ainda hoje afeta as democracias modernas. O chamado Paradoxo de Condorcet revela que, em um cenário com três ou mais opções, um grupo de eleitores racionais pode produzir um resultado coletivo irracional. Em termos práticos, é possível que a maioria prefira o candidato A sobre o B, o B sobre o C e, surpreendentemente, o C sobre o A. Essa circularidade matemática explica por que a tão sonhada “terceira via” parece, mais uma vez, um destino improvável de ser alcançado.

O cenário de Condorcet manifesta-se na fragmentação das preferências. Se isolarmos os confrontos diretos, muitas vezes podemos ter situações em que um candidato moderado venceria qualquer um dos polos em um eventual segundo turno. Contudo, a estrutura do nosso sistema eleitoral exige que esse “vencedor de consenso” sobreviva ao funil do primeiro turno. É aqui que a lógica de Condorcet se choca com a realidade política: enquanto os polos possuem bases fiéis e intransigentes que garantem sua vaga na final, o moderado é vítima da própria racionalidade. O eleitor, temendo a vitória do seu “inimigo”, frequentemente abandona a opção moderada para garantir o triunfo do “menos pior”, matando a terceira via antes mesmo que ela possa provar sua viabilidade estatística.

No tabuleiro de 2026, a economia surge como o fiel da balança, mas também como o combustível para essa circularidade. De um lado, temos o governo buscando a continuidade sob o mote do populismo econômico e da manutenção de programas sociais. Do outro, uma oposição de direita que, embora fragmentada em nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e herdeiros do bolsonarismo, mantém uma unidade ideológica em torno da crítica à gestão atual. No meio desse fogo cruzado, nomes que tentam se viabilizar através de uma agenda técnica ou reformista acabam espremidos. O paradoxo ensina que, em ambientes polarizados, a média das opiniões raramente sobrevive à dinâmica de confronto direto, pois não consegue galvanizar a rejeição necessária para se tornar uma alternativa de poder real no sistema de dois turnos.

Sem um fato novo que rompa a circularidade das preferências, o Brasil corre o risco de repetir o roteiro de eleições passadas: um país que, no íntimo, deseja o equilíbrio, mas que, nas urnas, é forçado a escolher entre dois projetos que se alimentam mutuamente da própria rejeição. A estabilidade institucional e a previsibilidade econômica dependem menos de quem vencerá em outubro e mais da nossa capacidade de reformar um sistema que, por essência, parece destinado a silenciar a voz do meio em favor dos extremos.

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