Economia para Todos

Economia real em foco

Ao contrário do Boletim Focus, que ouve quem financia, a Pesquisa Firmus ouve quem produz, estoca e precifica

Durante anos, o mercado brasileiro habituou-se a começar a semana decifrando o Boletim Focus. A liturgia de analisar o que bancos e corretoras esperam dos juros e da inflação tornou-se padrão. No entanto, desde o ano passado temos um novo instrumento para capturar os ânimos do mercado: a Pesquisa Firmus. Ao contrário do Focus, que ouve quem financia, a Firmus ouve quem produz, estoca e precifica.

A premissa da Firmus é ouvir o setor não financeiro, a chamada “economia real”. São 240 empresas de médio e grande porte da indústria, comércio, serviços e agricultura que, trimestralmente, abrem suas expectativas para o Banco Central (BC). A grande valia desse levantamento não é apenas a previsão macroeconômica, mas a psicologia de preços por trás dela. O relatório mais recente ilustra bem essa dinâmica, apresentando um cenário de alívio macroeconômico, mas com um alerta microeconômico importante.

Do ponto de vista macro, o empresariado está otimista. Houve um recuo nas expectativas de inflação: a mediana projetada para o IPCA de 2025 caiu de 5% para 4,5%, enquanto para 2026 o ajuste foi de 4,5% para 4,2%. Esse movimento veio acompanhado de uma visão mais benigna sobre o câmbio, com a projeção do dólar para os próximos seis meses recuando para R$ 5,50, ante R$ 5,60. Quando quem decide o preço na gôndola acredita que a inflação vai ceder, a profecia tende a se autorrealizar, facilitando o trabalho do BC.

Entretanto, a riqueza da Firmus mora nos detalhes que escapam aos modelos tradicionais. Embora esperem uma inflação menor, as empresas sinalizaram uma mudança de postura em suas próprias políticas de preços. Após três trimestres de queda, voltou a subir a parcela de empresários que planeja reajustes acima da inflação.Pode parecer contraditório, mas explico: o custo dos insumos caiu, registrando redução no índice de expectativas pelo terceiro trimestre seguido. Em tese, isso abriria espaço para preços menores. Na prática, porém, as companhias parecem dispostas a aproveitar esse alívio nos custos não para baratear o produto final, mas para recompor margens de lucro que foram comprimidas nos últimos anos. É o comportamento clássico de defesa de caixa em um ambiente onde a percepção da situação econômica, embora esteja melhorando, ainda permanece em terreno negativo.

No front da atividade, o pragmatismo impera. Não há euforia, mas sim estabilidade. A expectativa de crescimento do PIB para 2025 manteve-se em 2,1%, com um ligeiro ajuste para 1,8% em 2026. É um cenário de crescimento modesto, sustentado por uma oferta de crédito ainda resiliente e custos de mão de obra comportados.

A Pesquisa Firmus tornou-se leitura obrigatória porque ela captura a percepção de quem gera emprego e renda. Mais do que números, nos oferece um termômetro do comportamento real do mercado, mostrando que a economia, mesmo diante de sinais positivos, segue guiada por uma lógica de prudência.

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