Mercado de trabalho: por que indicadores do payroll são tão importantes?

8 de fevereiro de 2024 às 5h13

Na semana passada, o Bureau of Labor Statistics, principal órgão de monitoramento das estatísticas de emprego nos Estados Unidos, divulgou os dados relativos ao emprego em janeiro. O payroll mostrou a criação de 353 mil novas vagas de trabalho, muito acima da expectativa de mercado, que previa a geração de 185 mil empregos. Além disso, houve uma revisão nos dados de dezembro de 2023: anteriormente divulgada a criação de 216 mil vagas, os números foram ajustados para 333 mil. A taxa de desemprego permaneceu em 3,7% pelo terceiro mês consecutivo, enquanto os salários aumentaram 0,6%.

O relatório de emprego não agrícola, conhecido como non-farmpayroll ou simplesmente payroll, é uma pesquisa mensal do mercado de trabalho realizada pelo US Bureau of Labor Statistics. Geralmente divulgado na primeira sexta-feira útil de cada mês, o payroll fornece dados como o saldo de criação ou perda de empregos, a taxa de desemprego, o salário médio e as horas trabalhadas, excluindo empregos agrícolas, autônomos e de organizações sem fins lucrativos.

Entre todos os indicadores macroeconômicos que influenciam o mercado, o nível de emprego é um dos mais cruciais. No contexto da maior economia do mundo, os Estados Unidos, o relatório payroll é considerado como um dos dados mais significativos.

Este relatório é um indicador-chave da atividade econômica norte-americana. Um mercado de trabalho robusto, com aumento de empregos e queda no desemprego, sugere uma economia em crescimento.

Por outro lado, um aumento no desemprego e na escassez de empregos indica uma economia em processo de desaceleração. Esses números são amplamente utilizados pelos bancos centrais para analisar a conjuntura econômica e definir as taxas de juros. Nos EUA, o Federal Reserve (Fed, Banco Central dos Estados Unidos) usa o payroll para orientar suas decisões.

Indicadores de emprego e renda estão diretamente ligados à riqueza do país, refletida pelo Produto Interno Bruto (PIB). Em uma economia em crescimento, com aumento dos salários e mais empregos disponíveis, o consumo tende a aumentar, impulsionando o crescimento do PIB e os lucros das empresas.

Isso cria um ambiente propício para o pleno emprego, onde todos os recursos de produção estão sendo utilizados. O impacto também é observado no mercado de capitais, influenciando tanto o mercado de títulos, como o mercado de ações.

Dado os recentes desdobramentos pós-pandemia, em especial a maior pressão sobre o nível de preços na maioria das economias mundiais e, em especial, a norte-americana, o Fed lançou mão da elevação de juros, visando promover uma política monetária mais restritiva. A ideia é que, quanto maior a taxa de juros, mais restrito torna-se o crédito, o que acaba por desestimular o consumo familiar e o investimento produtivo, fazendo com que a inflação ceda. Em contrapartida, há uma expectativa de aumento do desemprego, dado o menor nível de atividade econômica.

Porém, os dados recém-divulgados mostram certa resiliência do mercado de trabalho da maior economia do mundo, mesmo com os juros mantidos no nível mais alto desde 2001. Na prática, isso inviabiliza movimentos de flexibilização da política monetária, via cortes de juros, por parte do Fed. Afinal, com o mercado de trabalho ainda aquecido, espera-se que as pressões nos preços ainda persistam, levando a necessidade de manter os juros em altos patamares.

As implicações da manutenção dos juros elevados são diversas, não sendo foco deste artigo. Porém, cabe destacar que, com as taxas de juros altas, os títulos do Tesouro dos EUA, considerados os ativos mais seguros do mundo, se tornam ainda mais atraentes, desviando fluxos de capital que irrigariam outras economias, especialmente as emergentes como o Brasil, onde o risco é mais alto.

Com o mercado de trabalho dos EUA ainda forte, o acompanhamento das próximas ações do Federal Reserve e das tendências de emprego permanece essencial para compreendermos a dinâmica da economia mundial neste e nos próximos anos.

* Especialista em Educação Financeira no Grupo Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.

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