Petróleo, guerra e inflação
A destruição de valor provocada por uma guerra é, talvez, a principal lente para entender como conflitos alteram a estrutura econômica de uma nação. Tecnicamente, a guerra atua como um choque externo que obriga a economia a readequar suas prioridades e, no limite, reduz sua própria capacidade máxima de produção. Para os países envolvidos no conflito, o capital que deveria financiar infraestrutura e consumo civil é desviado para o esforço militar, por exemplo, reduzindo o potencial de crescimento a longo prazo. Esse processo não gera apenas uma perda imediata, mas o que chamamos de histerese: cicatrizes permanentes na força de trabalho e no estoque de capital físico que impedem uma recuperação total mesmo após o fim dos combates.
Por vezes, países não envolvidos também sentem efeitos adversos. No cenário atual, a escalada de tensões no Oriente Médio coloca o mercado global em alerta devido à posição estratégica das nações envolvidas na produção de energia. Para a economia brasileira, o canal de transmissão mais sensível é o preço do petróleo, que atua como um gatilho para a inflação doméstica. Como gasolina e diesel têm peso relevante no cálculo do IPCA, qualquer valorização sustentada do barril de petróleo no mercado internacional pressiona diretamente o custo de vida no país. É um choque de oferta, onde o aumento de um insumo básico encarece toda a cadeia produtiva.
Contudo, a estrutura fiscal brasileira possui uma dualidade diante de crises no setor petrolífero. Enquanto o consumidor sente o peso na bomba, o governo se beneficia do aumento das receitas oriundas das exportações e da arrecadação federal. Historicamente, o poder público tem nos impostos e nos dividendos pagos pela Petrobras uma de suas fontes de arrecadação. Esse fluxo adicional de recursos pode ser relevante para o equilíbrio das contas públicas, ajudando a compor o resultado primário.
A grande questão para a política econômica passa a ser como equilibrar esses dois pratos da balança. Existe a possibilidade de utilizar esse excesso de arrecadação cíclica como um “colchão” para amortecer o impacto inflacionário para o consumidor. Tecnicamente, o governo poderia editar medidas para reduzir ou zerar impostos federais sobre os combustíveis, utilizando o ganho extra com royalties e dividendos como contrapartida fiscal para não ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal. No caso brasileiro, esse ajuste recairia principalmente sobre a gasolina, uma vez que o diesel já opera com isenção de tributos federais.
A economia brasileira encontra-se em uma posição onde a volatilidade externa pode ser mitigada por uma gestão fiscal ativa. O desafio está na coordenação entre o repasse dos custos e o uso estratégico das receitas extraordinárias para garantir que o choque geopolítico não se traduza em uma desaceleração econômica prolongada. Isso, talvez, possa ser considerado caso o conflito perdure.
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