O plano de voo da dívida
Na semana passada, o mercado esteve concentrado nas decisões de política monetária, mas outra divulgação relevante também ocorreu: o Plano Anual de Financiamento (PAF) para 2026. O documento funciona como o “plano de voo” da Dívida Pública Federal, pois estabelece diretrizes de transparência e previsibilidade, indicando ao mercado como o governo pretende financiar suas necessidades, quais títulos emitirá e como administrará os riscos de um passivo em expansão.
Para 2026, o objetivo central é melhorar o perfil da dívida. A estratégia prevê reduzir a dependência de títulos atrelados à Selic e ampliar a participação de papéis prefixados. Na prática, o Tesouro busca aproveitar momentos favoráveis para travar custos agora e diminuir a exposição a oscilações futuras dos juros. A meta é elevar a fatia de prefixados para até 25% do total, enquanto a parcela de dívida flutuante deve cair para abaixo de 50%.
O desafio é que essa busca por maior “qualidade” ocorre em um ambiente fiscal mais pressionado. Entra em cena a Necessidade Líquida de Financiamento, isto é, o volume de recursos que o governo precisa captar para pagar vencimentos de dívida e cobrir o déficit gerado quando as despesas superam as receitas. Para 2026, essa necessidade aumentou quase 15% em relação ao plano anterior, alcançando R$ 1,68 trilhão.
Esse montante tende a provocar o efeito conhecido como crowding out. Quando o Tesouro precisa captar valores tão elevados, parte da liquidez disponível é absorvida pelo setor público, reduzindo recursos para o crédito privado e pressionando o custo do dinheiro para empresas e famílias. Além disso, convencer investidores a comprar títulos prefixados em um ambiente de incerteza fiscal exige prêmios mais elevados. Assim, a tentativa de melhorar o perfil da dívida pode implicar custos maiores caso a confiança fiscal não avance.
O PAF também traz ajustes operacionais para ampliar o acesso a novas fontes de recursos. O Tesouro pretende preencher lacunas na curva de juros, criando referências intermediárias que facilitem a negociação de títulos em prazos hoje menos líquidos. No mercado externo, a estratégia de captação também se diversifica: além das emissões em dólar e dos títulos sustentáveis, o Brasil planeja voltar ao mercado em euros e avalia uma emissão inédita em yuan.
Como consequência desse cenário, o estoque da dívida pública deve superar a marca simbólica de R$ 10 trilhões em 2026. Ainda assim, o governo mantém um colchão de liquidez suficiente para cobrir cerca de sete meses de vencimentos, além de reservas em moeda estrangeira capazes de honrar integralmente a dívida externa do período.
Em síntese, o PAF 2026 combina cautela e ambição. Reconhece o crescimento da dívida, mas sinaliza disposição em alongar prazos e fixar custos sempre que as condições de mercado permitirem.
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