O empreendedorismo e a fé dos evangélicos
No final de semana recebi uns amigos em casa que são evangélicos e me acendeu a vontade de escrever sobre o tema, uma vez que já havia observado o quanto esse movimento cresce e que tem influenciado cada vez mais o consumo pela fé e por hábitos alinhados com a palavra bíblica.
Antes de entrar no tema, ressalto que estamos falando de religião e não de espiritualidade necessariamente. Isso significa que estamos falando de um grupo de pessoas que acreditam em dogmas e crenças e que se apoiam nelas.
Pesquisando o Censo de 2022, percebemos que o Brasil tem 47,4 milhões de evangélicos, o maior percentual já registrado na nossa história. Estamos falando de praticamente ¼ da população brasileira. É uma representatividade muito alta e não dá para ignorar.
É notória a habilidade que este grupo possui em estruturação, empreendedorismo e práticas de apoio à comunidade. Este último pilar é considerado um dos pontos centrais da felicidade interna bruta. Mas o que seria esse apoio à comunidade: não deixar alguém passar dificuldades, gerar apoio mútuo, estabelecer conexões que gerem prosperidade e riqueza. Todos esses fatores, aliados à uma poderosa visão como a da Bíblia, está fazendo o movimento crescer, principalmente no meio empreendedor.
E todos esses comportamentos viram também necessidade de consumo como academia, moda, hotelaria, música e mais uma infinidade de coisas. Nesse contexto, crescer dentro de uma rede que possui os mesmos valores, fica tudo muito mais simples, a famosa venda por indicação.
Outro ponto relevante é que o consumo, dentro desse contexto, não é visto apenas como uma transação econômica, mas como uma extensão da fé e da identidade. Escolher um produto ou serviço alinhado à visão cristã é, para muitos, uma forma de testemunho e de coerência com aquilo que se acredita. Isso explica por que a confiança e a recomendação têm um peso tão grande nesse mercado e por que a lógica da indicação funciona de maneira tão eficiente.
Segundo uma reportagem da revista Exame de outubro do ano passado, o mercado evangélico gera um movimento de R$ 21,5 bilhões por ano, é o que revela um estudo, O Gospel Power, que aponta que 58% dos evangélicos afirmam ter suas escolhas de consumo diretamente influenciadas pela fé. Além disso, 58% declaram estar dispostos a pagar mais por produtos e serviços alinhados à sua visão de mundo. Um ponto interessante citado na matéria é o que fala que o mercado evangélico não é um nicho, é um ecossistema completo.
A partir desse entendimento, fica claro que marcas e empresas que desejam dialogar com esse público precisam ir além de ações oportunistas ou meramente estéticas. Não se trata apenas de inserir símbolos religiosos ou linguagem bíblica na comunicação, mas de compreender profundamente os valores que sustentam esse ecossistema: ética, coerência, comunidade, prosperidade compartilhada e propósito. Quando esses elementos não estão presentes de forma genuína, a rejeição tende a ser imediata, inclusive pelos próprios evangélicos.
Ignorar esse fenômeno é fechar os olhos para uma das transformações mais relevantes do Brasil contemporâneo. Compreendê-lo, por outro lado, é um exercício essencial para quem quer entender o presente — e o futuro — do consumo, do empreendedorismo e da própria sociedade brasileira.
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