Finanças em Foco

O espelho financeiro: como a relação com o dinheiro revela quem somos

Dinheiro nunca é só racional; diz respeito à autoestima, ansiedade, medo de escassez e necessidade de validação

Como planejadora financeira, aprendi que dinheiro raramente é só sobre números. Ele fala de comportamento, emoções e escolhas. Mas essa compreensão não veio primeiro dos livros. Veio da minha própria história. Durante muito tempo, achei que meu problema era falta de controle. Hoje sei que era falta de consciência.

Eu brigava com faturas, limites e saldos sem perceber que o que estava em jogo nunca foi apenas o valor disponível, mas a forma como eu lidava com frustração, desejo e medo. Meu extrato sempre foi um espelho de quem eu era. Eu só não tinha coragem de olhar.

Cresci vendo minha mãe “dar um jeito” com o cartão de crédito. Para mim, o cartão virou uma varinha mágica capaz de transformar o “não” em “sim”. Mais tarde, quando descobri o cheque especial, foi como encontrar um dinheiro que parecia infinito. Sem educação financeira e sem consciência emocional, comecei a gastar acreditando que aquilo era meu. Quanto mais eu gastava, mais crédito recebia. E quanto mais crédito eu tinha, mais sentia que finalmente podia dizer “sim” para mim mesma.

O problema é que o que parecia liberdade virou prisão. A compulsão virou dívida. A dívida virou angústia. Minhas dívidas chegaram perto de R$ 80 mil e houve um momento em que eu não consegui pagar meu próprio almoço no trabalho.

Foi ali que entendi: meu problema nunca foi falta de dinheiro, foi falta de consciência sobre o que eu fazia com ele. Quando comecei a estudar educação financeira e psicologia econômica, não foi para aprender a investir, mas para aprender a me entender.

Dinheiro nunca é só racional. Ele conversa com autoestima, ansiedade, medo de escassez e necessidade de validação. Por isso, eu digo que o extrato é um diário emocional: ele mostra como lidamos com frustração, como buscamos alívio e como fugimos do desconforto.

O Brasil superou recentemente mais de 80 milhões de pessoas inadimplentes, o maior número da história. Isso não é apenas um dado econômico. É um retrato emocional coletivo. Não são milhões de pessoas irresponsáveis, mas milhões tentando sobreviver sem terem sido ensinadas a olhar para o próprio comportamento financeiro.

Ignorar uma dívida é como dirigir com a luz do motor acesa e cobri-la com fita adesiva. A luz some, mas o problema cresce. Com o dinheiro, fazemos o mesmo quando adiamos decisões e evitamos conversas difíceis.

A transformação começa quando paramos de tratar o dinheiro como inimigo e passamos a vê-lo como mensageiro. Ele não aponta erros. Ele revela histórias.

Para começar: olhe seu extrato como quem olha um espelho. Em vez de pensar “fui irresponsável”, pergunte: “Eu estava cansada?”, “Ansiosa?”, “Buscando controle?”. Depois, identifique seus gatilhos. Muitas compras vêm depois de dias difíceis ou sobrecarga emocional. Em seguida, questione suas crenças. Quando pensar “eu mereço gastar”, pergunte: “Eu mereço gastar ou eu mereço segurança?”. E, para terminar, troque a culpa por consciência. A culpa paralisa, a consciência liberta.

Seu dinheiro não é o problema. Ele é o espelho. E quando você aprende a se olhar com honestidade, começa a reorganizar não só suas finanças, mas a forma como se relaciona consigo mesma e com o seu futuro.

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