Finanças em Foco

Finanças pessoais na era dos ativos digitais: planejamento deixou de ser opção

Em um cenário de endividamento elevado e a efervescência de novas tecnologias financeiras, o conhecimento, planejamento e visão de longo prazo são determinantes para a construção de patrimônio sólido

Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mais de 78% das famílias brasileiras estão endividadas. Em contrapartida, informações da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que menos de um terço da população investe de forma regular. Essa discrepância revela que o problema não está apenas no nível de renda, mas, sobretudo, na falta de educação financeira, de planejamento estruturado e na forma como as pessoas se relacionam com o dinheiro ao longo da vida.

As finanças pessoais deixaram de ser um exercício limitado ao controle de gastos. Hoje, envolvem decisões estratégicas que passam pelo consumo consciente, formação de reservas, investimento eficiente e proteção patrimonial. Em um ambiente marcado por inflação persistente, volatilidade econômica, incertezas jurídicas e avanços tecnológicos acelerados, a maneira como cada indivíduo administra seus recursos impacta diretamente sua segurança financeira e sua capacidade de prosperar no longo prazo.

É nesse contexto de maior conscientização financeira que os ativos digitais ganham relevância. O mercado de criptoativos atravessa um processo consistente de amadurecimento, impulsionado por avanços regulatórios em diferentes países. O Brasil, inclusive, destaca-se entre as nações com maior nível de adoção desses ativos. Dados recentes indicam que o número de investidores brasileiros em criptomoedas já supera o de investidores em ações em cerca de 2,5 vezes, um sinal claro de mudança no comportamento do investidor.

A atratividade dos ativos digitais está associada a múltiplos fatores. Eles ampliam as possibilidades de diversificação patrimonial, reduzem a exposição a riscos locais, contribuem para a preservação do poder de compra e facilitam o acesso a mercados globais. Além disso, operam com menor dependência de intermediários tradicionais e introduzem ganhos relevantes de eficiência operacional. Tecnologias como blockchain e tokenização elevam os níveis de rastreabilidade, segurança e performance das operações financeiras. Ainda assim, não se trata de substituir integralmente os investimentos tradicionais, mas de compreender que o planejamento financeiro contemporâneo tende a ser híbrido, integrando diferentes classes de ativos.

Apesar do avanço, a adoção dos ativos digitais ainda enfrenta desafios. O uso desses instrumentos permanece concentrado em perfis mais jovens, com maior familiaridade tecnológica e maior tolerância ao risco. Esse cenário reforça a urgência de ampliar a educação financeira e digital, para que a incorporação desses ativos ocorra de forma consciente, alinhada aos objetivos e ao perfil de cada investidor.

Outro ponto central é o ambiente regulatório. Embora a regulamentação traga maior segurança jurídica e institucional, ela também gera tensionamentos ao confrontar a essência descentralizada da tecnologia blockchain. Encontrar equilíbrio entre inovação, proteção ao investidor e preservação dos princípios tecnológicos é um dos grandes desafios da nova economia digital.

Mais do que uma tendência, os ativos digitais refletem uma transformação estrutural no mercado financeiro.

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