Do Buena Vista Social Club
Uma ilha distante 150 km de Miami, até 1898 colônia espanhola, conquistada pelos Estados Unidos na guerra com a coroa espanhola e independente em 1902, com uma produção de açúcar e rum abastecendo o mundo, se torna colônia de máfia americana e ditadura do General Batista. Há 67 anos, sob a liderança de Fidel Castro, passa a ser satélite da União Soviética que pretendia instalar mísseis nucleares bem na porta dos Estados Unidos. Da crise dos mísseis, invasão norte-americana de Cuba pela Baía dos Porcos, intervenção cubana em vários países na América Latina e África, treinamento de guerrilheiros e assistência médica mais recente, Cuba, romântica visão de um mundo novo, mas uma ditadura, resistiu a tudo e sobreviveu. Até sua música maravilhosa, Buena Vista, é um belo exemplo disso, charutos e rum conseguiram sobreviver.
Com a queda da União Soviética, sumiu o dinheiro. Apareceram outros padrinhos, como a Venezuela e governos de esquerda na América Latina e até uma distensão com os Estados Unidos durante o governo Obama. Algumas mudanças, em especial atrair investimentos em turismo, facilidades em pequenos negócios, mas nada substancial. Empobrecimento geral e sem nenhuma perspectiva levou milhões de cubanos a emigrar, primeiro para Miami, e mais recentemente para o México e Brasil. Mas, o mundo, com a entrada de Trump na presidência norte-americana, mudou. Com a Venezuela sob domínio norte-americano, sumiu o fornecimento de petróleo e a ilha entrou em colapso total. O Brasil, a quem Cuba deve, como também a Venezuela, aproximadamente 1 bilhão de dólares, se nega a mandar petróleo por receio de sanções dos Estados Unidos. O mesmo vale para o México.
E aí, os Estados Unidos, mesmo com o conflito no Irã, com a guerra na Ucrânia, querem mudança na ilha. Os antigos guerrilheiros envelheceram e, com a conquista do poder, se aburguesaram, e a ilha perdeu sua importância estratégica para a Rússia e a China. Cuba não tem valor estratégico, a não ser talvez só pelo que sobrou de charutos e rum.
Quando como Enviado especial da Eslovênia para a América Latina e Caribe fui responsável na UE pelas relações com Cuba, o que dava sempre muito trabalho com prisões de dissidentes, um alto diplomata norte-americano me disse em off, que o que ele queria era que Cuba voltasse ser o que era quando ele ainda jovem ia visitar a ilha e aprender a viver, a ilha ao som de Buena Vista.
Com a última medida do governo comunista, anunciada no antigo ídolo da juventude revolucionária latino-americana, o jornal Granma, a qual permite investimentos dos exilados cubanos, com as mudanças que podem decorrer, a ilha provavelmente voltará ser o que foi na época do Batista. Um belo exemplo de como jovens idealistas latino-americanos se perderam nas entranhas da ideologia e como mudam as vertentes e interesses geopolíticos e seu valor.
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