Do mundo novo
Não tem mais previsão, são duas realidades que, com toda a resistência que temos às mudanças, temos que aceitar porque estão moldando o novo paradigma de nosso cotidiano: clima e tecnologia.
A onda de calor no hemisfério Sul e de frio no Norte, 157 eventos extremos no planeta, a temperatura mais alta que já experimentamos, mostrou, com a força da natureza, que simplesmente não estamos preparados para novos tempos climáticos. A questão não é a discussão, como na COP30 em Belém, mas que a infraestrutura pelo mundo afora não está preparada para um clima novo. As estradas não as aguentam enchentes, as redes elétricas caem, os incêndios se multiplicam, as casas e prédios foram construídos para um tipo de tempo que não existe mais, os hospitais não estão preparados para receber os pacientes diante de extremo calor ou frio. Os governos destinam recursos para o pós-desastre, mas poucos estão investindo para adaptar o país para um ambiente climático totalmente diferente do passado. Aliás, a prevenção dá pouco voto, e os eleitores também não cobram. E a recuperação custa muito mais, inclusive em vidas humanas, mas convém a todos, por falta de visão e coragem para agir. E o dinheiro é desviado para outras prioridades, como as armas.
Na área tecnológica, segunda constante do nosso presente e futuro, foram necessários 15 anos para que se criasse a estrutura necessária para a internet atingir milhões de pessoas. Para o Smartphone, com uso de internet, foram precisos 10 anos. E a OpenAI, ou ChatGPT, para atingir 800 milhões de usuários por semana neste final do ano, precisou de 2 anos. Assim, a IA, inteligência artificial pesquisada por dezenas de anos, mas posta no mercado em dois, como produto de consumo, é a tecnologia central de revolução industrial que vai mudar todos os aspectos de economia mundial. Com a sua adoção como mola mestra do desenvolvimento, necessitando para isso investimentos de 33 trilhões de USD em 5 anos, segundo a McKinsey, o PIB mundial vai aumentar em 4%, e o dos EUA, 5.4%.
Os investimentos, além de tecnologia e pesquisa, vão para datacenters, grandes consumidores de energia (até 10% do consumo total de energia nos EUA) e água (também nos EUA em 2030, o consumo será correspondente a 1.200 mil piscinas olímpicas). Para produzir chips, uma indústria trilionária, precisa de cobre, silício e 17 outros minerais. E muito dinheiro.
Quem lidera esse avanço são os EUA. A Amazon, Google e Microsoft dominam 63 % do mercado de plataformas nas nuvens. A China, 8 %. No uso de IA, os chineses estão atrás dos EUA, mesmo com o susto que deu o DeepSeek. Ou seja, o domínio americano não é tecnológico, será também geoeconômico e político.
A questão é como os países menores e do SulGlobal vão se adaptar a essa nova realidade. E isso quer dizer o mundo inteiro, com exceção dos EUA e da China. Bem-vindos à nova era.
A IA não destrói uma classe de empregos, mas cria outra. O fato é que, para criar novos empregos, precisa de conhecimento para usar nova tecnologia. E esse movimento no Brasil está super atrasado. Que somos seguidores e pouco criadores de tecnologias, há exceções que confirmam a regra, é um fato. Mas que somos despreparados para seguir as tecnologias, é outro desafio. Para começar, as lideranças políticas, do topo aos vereadores, insistem em adotar uma postura de avestruz. As lideranças tecnológicas falam entre si na academia, mas não conseguem se comunicar com o mundo. E os empresários, pressionados pela conjuntura tributária e monetária, salvam o que podem, aguardando um ambiente melhor para avançar.
Na área de clima, a infraestrutura está melhorando, inclusive com investimentos em computação no INPE, mas ninguém usa essas informações para planejar as mudanças estruturais, seja no nível setorial, seja regional. Temos os que sabem escrever, e faltam os sabem ler.
Há muita alegria com datacenters. Vale a pena ver o filme Eddington, Novo México, EUA, um município que recebeu um datacenter. Ninguém fala em valor adicionado à economia regional. Nem perguntam se tem energia suficiente e infraestrutura energética, veja como com as chuvas afetam o fornecimento de energia pelo país afora, se é vulnerável e se tem água. Veja hoje o caso de São Paulo com seca, sem água. O sistema de concessão tanto de energia como de água, espere para ver o que vai acontecer com a COPASA, fraca e dirigida ao investidor e não ao consumidor. Datacenters são necessários, mas merecem o cuidado para a alegria de um mandato não virar tristeza para o resto de vida.
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