Giro pelo mundo

Da Groenlândia e Amazônia

As duas regiões fazem parte do dilema global de desenvolvimento

Um país coberto de gelo, pouco habitado, próximo dos EUA, sofrendo com as mudanças climáticas, seu gelo derretendo e com isso abrindo novos caminhos de navegação e expondo sua riqueza mineral. Território associado à Dinamarca e que Trump quer a todo custo para os Estados Unidos. Se conseguir, e do ponto de vista estratégico norte-americano seus argumentos estão corretos, não só fica para a história, no ano da comemoração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, mas muda também por muitos anos a relação geopolítica do mundo. E para conseguir isso tem que convencer não só a Dinamarca, que administra o território, mas toda a UE. E se usar de força, todos os aliados da aliança militar OTAN. E mesmo conseguindo com diplomacia, deixará marcas profundas na relação dos EUA com a Europa. E se não for com a diplomacia, então terá destruído a já enfraquecida UE, com a qual acabamos de fazer um acordo, e a OTAN. Se pegar o bicho come, se correr o bicho pega.

O Brasil é um dos países que tem interesses na outra geleira do mundo, a Antárctica. Temos uma base de pesquisa que é, com a falta de recursos, heroicamente mantida pela Marinha, com apoio da FAB e da USP. Mas estamos lá. O conflito de Groenlândia pode ser tectônico em termos de reorganização espacial mundial, ou seja, em sua reorganização geopolítica. Ou seja, os EUA consideram o continente ao sul como parte de seu quintal, e adicionam um território da Europa para ampliar seu poder.

E no continente latino-americano, onde ainda tem a questão do Canal do Panamá como ponto estratégico de interesse do governo Trump, temos a Amazônia. Ela não se conecta como a Groenlândia pela proximidade com os EUA, mas além de ser o maior bioma do mundo e fundamental para o clima, tem riquezas minerais estratégicas ainda não exploradas, que serão fundamentais para a sobrevivência da humanidade nos próximos séculos. E dos nove países que compõem o tratado amazônico, Venezuela e Guiana já estão sob controle norte-americano.

Os EUA, já no século passado, iniciaram, com o ciclo da borracha, a conquista da Amazônia brasileira. Depois da bonança no início do século, lembre da Fordlandia, e da quebra do setor, foi durante a Segunda Guerra que o Brasil se tornou fundamental para abastecer os norte-americanos. O ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt fez uma expedição com Cândido Rondon em 1913, percorrendo o Rio Dúvida de 1600 km. E depois, os norte-americanos ativamente ajudaram os militares brasileiros no combate à guerrilha na Amazônia, com receio de que estabelecessem repúblicas socialistas. Já na democratização adquirimos o sistema de vigilância da Amazônia SIVAM de empresa norte-americana. E mais recentemente, sem o Starlink do Musk a Amazônia fica muda.

A Amazônia não ė a Groenlândia, mas as duas regiões fazem parte do dilema global de desenvolvimento, seja na área climática, seja na sua riqueza mineral. Então, vamos ficar alertas.

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