Da Venezuela querida e complexa
A primeira vez que esse país caribenho me chamou atenção foi quando um industrial esloveno radicado lá se casou com a estrela de cinema norte-americana e sonho da nossa juventude Natalie Wood. Então lá há milionários que se casam com estrelas? E depois, alguma Miss Universo. E daí fiz a primeira visita lá, quando o barril de petróleo saltou de 1 dólar para 3 e foi fundado o cartel de petrodólares Opec com a Venezuela liderando o aumento de preços, com os países árabes. Em Caracas, só automóvel grande. No Brasil, Fusca. Lá, gasolina mais barata do que água mineral. E projetos grandiosos como a hidrelétrica Guri, de onde expulsaram a empreiteira brasileira Camargo Correia, e o complexo minero-siderúrgico Orinoco, construído pelos alemães, algo que o Brasil não conseguiu fazer, apesar de Carajás, que só extrai, mas não processa minério de ferro.
Empresas do mundo inteiro corriam para lá, onde se ganhava dinheiro, apesar da complexidade das operações. A Venezuela emprestava dinheiro, o custo de vida era alto, tudo importado, a democracia sempre ameaçada por golpes, e uma aliança firme com os EUA, onde os ricos investiam. A complexidade de negócios exigia muito dos executivos, que depois de lá eram capazes de dirigir empresas no Brasil. Assim foi com o legendário Wolfgang Sauer, que veio depois dirigir a VW no Brasil. E muito mais tarde outro executivo da Mercedes, que foi dirigir a fábrica em Juiz de Fora.
Essa bonança ilusória levou a Tecnowatt a abrir uma filial, em cooperação com a GE. Tudo ia bem no papel até o gerente de lá, galego, visitar Contagem e me enrolar com uma compra de champanhe no freeshop. Mandamos a nossa gerente de BH para lá e descobrimos um rolo nunca visto. Ninguém trabalhava, os relatórios e recibos eram falsos, mas existia mercado. Ficamos alguns anos com a gestão brasileira e saímos quando faltaram dólares para pagar as contas. Havia vários tipos de câmbio e obter dólar para pagar importação era complicado. Até quando visitávamos Carcás, para sair precisávamos de uma certidão da Receita, complicada de obter. Entenda-se por complicada sempre pagar alguém.
Na fase seguinte da minha vida fui nomeado Enviado Especial da Eslovênia, que presidia o Conselho da UE, para a América Latina. Ou seja, responsável pelas relações da UE com o continente. E coordenador de uma reunião de 60 chefes de estado e de governo, em Lima, dos dois continentes. Diplomatas experientes me avisaram que Cuba e Venezuela seriam problema. Já numa reunião de embaixadores em Lisboa, o representante português que presidiu a sessão perdeu a paciência com os venezuelanos e disse claramente que se eles não queriam colaborar que se retirassem. Depois foi o rei da Espanha que mandou Chávez se calar numa reunião em Santiago do Chile.
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