Em ano de juros altos, investir bem vale mais que investir muito
Na indústria, parar de investir não significa “economizar”. Significa aceitar, pouco a pouco, perda de eficiência, aumento de paradas, obsolescência tecnológica e queda de competitividade. Equipamentos envelhecem, processos ficam caros, e a régua do cliente sobe mesmo quando o mercado parece estagnado e os juros elevados.
Investir no Brasil não é trivial, a taxa Selic segue em 15% ao ano com câmbio volátil e um período eleitoral pela frente. Nesse contexto, ficar esperando para ver o que acontece é tentador, mas quase sempre isso é caro.
Investimento contínuo na Industria não é opcional e não contempla apenas expansão. Ele inclui:
- Sustentar o básico, manter segurança, qualidade e confiabilidade.
- Ganhar produtividade, automação, digitalização e eficiência energética para reduzir custos.
- Proteger margem e mercado, atender padrões técnicos, ambientais e de rastreabilidade que viram requisitos.
- Preparar gente e operação, tecnologia sem capacitação vira ativo ocioso.
Além disso, apesar do momento de juros altos e incerteza política, existem movimentos que justificam novos investimentos:
- Juros podem começar a cair: o Copom sinalizou a intenção de iniciar um ciclo de redução em março.
- Acesso a mercado: o acordo Mercosul–União Europeia, assinado em janeiro, prevê uma área de livre comércio de cerca de 720 milhões de pessoas, abrindo oportunidades e elevando a concorrência.
- Apagão de mão de obra: a desocupação chegou a 5,6% em 2025 (IBGE) e, no 3º trimestre de 2025, 22,9% dos industriais citaram “falta ou alto custo de trabalhador qualificado” entre os principais problemas (CNI). Para crescer com menos gente, só há um caminho: produtividade.
- Movimentos estratégicos e boas perspectivas em setores como Óleo e Gás, Construção, Mineração e Químicos atuam como catalizador da renovação do parque industrial.
Se investir é preciso, é preciso definir quando e em que. Para isso, comece pela estratégia: “qual problema de competitividade o projeto resolve (qualidade intrínseca, custo, serviço, portfólio, risco)?”. Na sequência, separe “obrigatório” de “discricionário”. Segurança, compliance e continuidade têm prioridade e critérios próprios. Também exija cases bem-feitos: demanda, câmbio, preço e custo de capital; avalie as premissas antes de aprovar e faça testes de sensibilidade.
Além disso, priorize por valor e capacidade. Vale montar um portfólio balanceado (sustentação, eficiência e crescimento). Quebre apostas grandes em etapas, com piloto, prova de conceito e ramp-up antes do capex completo.
Uma vez decidido o investimento, é preciso fazer sair do papel. Para isso deve-se ter:
- Governança clara com sponsor, dono do benefício, PMO e ritos de decisão.
- Escopo, prazo e orçamento “congelados”. Mudanças só com análise de impacto e contramedidas definidas.
- Controle físico-financeiro com marcos, caminho crítico, medições de progresso e gestão de riscos.
- Contratos bem amarrados, engenharia de valor, estratégia de suprimentos e penalidades por atraso.
- Comissionamento e captura de benefícios com treinamento, handover para a operação e metas de resultado no pós-startup.
Investir é preciso, mas investir bem é disciplina. Revise seu portfólio de capex, crie um funil de seleção com critérios objetivos e trate a execução como operação crítica. Em um Brasil de juros altos e concorrência crescente, o retorno não virá de “gastar menos”, e sim de investir melhor.
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