Indústria Inteligente

O apagão de mão de obra no Brasil: quando a vaga existe, mas o profissional não

País vive cenário de aumento do tempo de contratação, mais rotatividade e pressão de custos

A economia brasileira entrou em uma fase em que “vaga aberta” não é garantia de contratação. Com a taxa de desocupação em 5,2% no trimestre móvel encerrado em novembro de 2025, o menor nível da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) desde 2012, o mercado fica cada vez mais disputado e o tema volta ao centro da agenda industrial. Um verdadeiro “apagão de mão de obra”.

O que acontece não é uma falta generalizada de pessoas, e sim um descompasso: vagas crescem (ou mudam de perfil), mas as competências e a disponibilidade regional não acompanham. O resultado é aumento do tempo de contratação, mais rotatividade e pressão de custos. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), no 3º trimestre de 2025, 22,9% dos industriais citaram “falta ou alto custo de trabalhador qualificado” entre os principais problemas.

Essa falta de profissionais qualificados resulta em manutenção preventiva adiada, dificuldade de montar novos turnos, atraso em projetos de expansão, mais horas extras. Problemas estes que, se persistem, geram efeitos negativos na produtividade, qualidade e moral do time.

Três fatores estruturais ajudam a entender por que o “apagão” está acontecendo. O primeiro, mercado de trabalho mais apertado: com menos gente desocupada procurando emprego, a indústria concorre com outros setores e sofre mais onde há turnos, plantas distantes e maior exigência técnica.

Na sequência, demografia: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que a população brasileira vai parar de crescer em 2041, chegando aos 220 milhões de habitantes. Além disso, a proporção de pessoas com 60 anos quase dobrou nos últimos 20 anos. Também soma-se isto ao menor número de nascimentos. A cada dia menos gente entra e mais gente sai do mercado de trabalho.

Por último, transformação tecnológica: com novas tecnologias e processos a demanda por qualificação técnica fica mais elevada, pois operar um equipamento de última geração exige cada vez mais conhecimento. Funções como engenharia, manutenção, metalmecânica e logística estão em alta. O Mapa do Trabalho Industrial estima que o Brasil precisará qualificar cerca de 14 milhões de profissionais até 2027, considerando novos formandos e requalificação.

Não existe “bala de prata” para o problema. Mas, há um conjunto de fatores que estão sob controle das empresas como:

1) Melhorar o planejamento de força de trabalho: mapear funções críticas, prever aposentadorias e conectar o plano de pessoas ao plano de automação;

2) Investir em formação acelerada: parcerias com Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), institutos federais e escolas técnicas; usar aprendizagem em campo, trilhas modulares e certificações por competência para reduzir o tempo até a produtividade;

3) Requalificação maciça: se o maior volume é de upskilling, academias internas, job rotation e multiplicadores se tornam funções core da operação;

4) Melhorar a proposta de valor e a retenção: segurança, liderança, trilhas de carreira, turnos e logística (transporte, alimentação, moradia quando aplicável). Neste mercado, perder gente custa caro;

5) Novos “pools” de talento: mulheres em áreas técnicas, profissionais 50+, pessoas com deficiência e maior mobilidade interna entre plantas.

Em síntese, mão de obra se tornou uma questão ainda mais estratégica. A indústria que tratar qualificação, atração e retenção com disciplina e gestão vai conseguir superar mais este desafio, mesmo em um País que envelhece rapidamente.

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