Minerais críticos e como o Brasil precisa exportar valor
Os minerais críticos deixaram de ser um tema restrito à mineração e passaram a integrar a agenda de política industrial, geopolítica e estratégia empresarial. A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) projeta crescimento da demanda por minerais ligados à transição energética em todos os cenários, enquanto a produção e, sobretudo, o refino seguem concentrados.
Nesse contexto, o Brasil tem uma oportunidade rara: deixar de atuar apenas como fornecedor de recurso e avançar nas etapas mais nobres da cadeia. O relatório da IEA indica que a participação dos três maiores países no refino dos principais minerais energéticos passou de 82% em 2020 para 86% em 2024. Permanecer como extrator significa capturar uma parcela menor do valor.
Base geológica e interesse de investimento: A base mineral existe. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil se destaca nas reservas de nióbio, grafita, terras raras, níquel, manganês, vanádio, bauxita, lítio e cobalto. O próprio ministério aponta cerca de 50 projetos ligados aos minerais da transição energética, com investimentos previstos superiores a US$ 18 bilhões. No guia do investidor de março de 2026, o MME reforça o objetivo de atrair capital para exploração e transformação mineral com previsibilidade, transparência e segurança jurídica.
O ponto decisivo, porém, está menos na geologia e mais na capacidade industrial. O guia de 2026 sinaliza que o Brasil não pretende apenas exportar minério e concentrado, mas capturar valor na transformação. A matriz elétrica majoritariamente limpa é um diferencial relevante. Processamento e refino são intensivos em capital e energia. Ao combinar fontes energéticas competitivas e menor pegada de carbono, o País pode oferecer insumos mais aderentes às exigências das cadeias globais.
Construir ecossistema, não apenas abrir mina: Abundância geológica não garante protagonismo. Para transformar potencial em indústria, será preciso avançar em licenciamento com previsibilidade, infraestrutura logística e energética, formação de fornecedores, acordos de offtake, tecnologia de processamento, pesquisa aplicada e coordenação entre mineração, químicos, siderurgia e manufatura. O próprio MME destaca o adensamento das cadeias produtivas, a transferência tecnológica e a garantia de um ambiente regulatório e tributário favorável. O desafio central não é apenas extrair, mas estruturar um ecossistema industrial competitivo.
Escala de capital e decisão estratégica: A dimensão financeira reforça a urgência. O guia do investidor projeta cerca de US$ 77 bilhões em investimentos até 2030 em minerais críticos e estratégicos. O BNDES, junto ao MME, estruturou fundo para mobilizar R$ 1 bilhão em projetos ligados à transição energética, descarbonização e segurança alimentar. Nesse cenário, a discussão deixa de ser a existência de mercado. Passa a ser a capacidade de capturar valor.
Para os executivos, a decisão é objetiva: o País quer se contentar em exportar tonelada ou pretende exportar materiais processados de maior valor? Trate minerais críticos como agenda integrada de mineração, energia, tecnologia e indústria. A janela está aberta, mas não ficará aberta para sempre.
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