Indústria Inteligente

Preço da celulose reage, mas o próximo ciclo será decidido na execução

Valor foi impactado por ajustes recentes e quais são as previsões para o mercado
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Grandes empresas de papel e celulose estão anunciando novos reajustes para a celulose de fibra curta. A Suzano comunicou aumentos a partir de outubro: US$ 50 por tonelada nas Américas e na Europa e US$ 20 na China e demais mercados asiáticos. Para a China, a Arauco também anunciou alta em setembro, e o mercado chinês absorveu um aumento menor do que o inicialmente sugerido.

Há razões para o otimismo? Segundo o Itaú BBA, o mercado de fibra curta se reequilibrou mais rápido do que as próprias empresas previam, com estoques em torno de 2,3 meses e retomada das compras por fabricantes chineses de papel integrados. Na Europa, porém, os preços da celulose caíram nos primeiros dias de setembro, o que indica que o reajuste ainda não se realizou em todas as regiões. Há também leituras mais cautelosas e a XP Investimentos vê espaço limitado para uma recuperação sustentada, em razão da fraca rentabilidade dos fabricantes de papel e dos 6,8 milhões de toneladas de capacidade integrada adicional esperados na China até o próximo ano.

O que os números ainda mostram

Os dados de volume pedem prudência. Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o País produziu 29,4 milhões de toneladas de celulose em 2025, alta de 6,9%, e exportou 20,7 milhões, avanço de 11,6%. Em receita, porém, as exportações do setor de árvores cultivadas caíram 4,8%, para US$ 14,9 bilhões, principalmente por causa dos preços. No primeiro semestre de 2026, a produção ficou estável em 13,9 milhões de toneladas, enquanto as exportações de celulose recuaram 10,5% em volume e 4% em valor. A melhora de preços, ainda não aparece nas vendas externas e deve ter seu impacto real percebido nos últimos dois trimestres deste ano.

Ao mesmo tempo, o setor segue investindo. As empresas projetam R$ 105 bilhões até 2028 em novas fábricas, modernização, manejo florestal e logística, com projetos em Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Bahia e Paraná. Só a Suzano prevê capex anual entre R$ 10,9 bilhões e R$ 13,3 bilhões. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a silvicultura somou R$ 41 bilhões em 2025, alta de 8,6%, em 10,4 milhões de hectares de florestas plantadas, 78,6% delas de eucalipto.

Aproveitar a janela sem repetir o ciclo

O risco dos setores intensivos em capital é aprovar investimentos quando os preços sobem e entregá-los quando a oferta já cresceu. Por isso, o reajuste de outubro deve ser lido como informação, e não como premissa. Três cuidados ajudam as lideranças nesse momento:

• Revisar o estudo de viabilidade dos projetos com um preço de celulose conservador, de modo que o retorno se sustente mesmo em um cenário de baixa.
• Concentrar a gestão no que a empresa controla: custo por tonelada entregue, disponibilidade dos ativos críticos, produtividade florestal e logística de escoamento. O preço oscila, e a posição de custo é o que protege a margem quando ele cede.
• Tratar a execução do capex como operação crítica, com escopo bem definido, ROI claro, prazo e orçamento sob controle.

Os aumentos anunciados pela Suzano e Arauco são bons sinais para o setor, mas, por si só, não substituem execução disciplinada. Quem usar este momento para otimizar custos, ser criterioso com os investimentos e operar de maneira eficiente estará mais bem posicionado para capturar a rentabilidade que vem a reboque da retomada de preços.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

André Chaves

Vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital


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