ISO 56000: quando inovar deixa de ser discurso e vira sistema
Durante muito tempo, a inovação foi compreendida como um fenômeno essencialmente intuitivo, quase artístico, associado a talentos individuais, ideias geniais e momentos pontuais de inspiração. Embora sedutora, essa visão mostrou-se limitada: não escala, não é sustentável ao longo do tempo e, em geral, se perde com mudanças de liderança. É nesse contexto que a família de normas ISO 56000 emerge como um marco relevante ao reposicionar a inovação no campo da gestão.
A ISO 56000 é a norma base da família de padrões internacionais voltados à gestão da inovação. Seu papel central é estabelecer fundamentos, princípios e um vocabulário comum que permita às organizações estruturar, implementar e aprimorar um Sistema de Gestão da Inovação. Ao definir conceitos-chave e princípios orientadores, a norma cria as condições para que a inovação deixe de ser episódica e passe a ser conduzida de forma sistemática, colaborativa e orientada à geração de valor e à sustentabilidade.
Em 22 de janeiro de 2026, foi publicada a 2ª edição da ABNT NBR ISO 56000:2026 – Gestão da inovação – Fundamentos e vocabulário, uma adoção idêntica, em conteúdo técnico, estrutura e redação, da ISO 56000:2025, elaborada pelo Technical Committee 279 – Innovation Management (ISO/TC 279). A norma é aplicável a organizações de qualquer porte, setor ou natureza, contemplando diferentes tipos e formas de inovação e abordagens, e representa mais um resultado relevante dos trabalhos desenvolvidos no âmbito da Comissão de Estudo Especial em Gestão da Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).
Mais do que uma atualização normativa, a ISO 56000 consolida uma mudança de paradigma ao tratar a inovação como um sistema de gestão, e não como um conjunto de iniciativas isoladas. A norma não prescreve soluções ou métodos específicos, mas oferece um framework robusto para o desenvolvimento de capacidades organizacionais voltadas à criação de valor econômico, social, ambiental ou institucional, respeitando o contexto e a maturidade de cada organização.
O eixo estruturante da ISO 56000 está na integração entre estratégia, governança e execução. A inovação passa a fazer parte do processo decisório, do desenho organizacional, da alocação de recursos e da gestão de riscos. Princípios como foco em valor, liderança comprometida, cultura colaborativa, gestão da incerteza e aprendizado contínuo tornam-se fundamentais para operar em ambientes cada vez mais complexos e dinâmicos.
A norma também reforça a importância da tomada de decisão baseada em evidências, estimulando a gestão de portfólios de inovação, o uso de critérios claros de priorização, a experimentação estruturada e a captura sistemática de aprendizados. Longe de engessar a criatividade, essa abordagem cria condições para que ela se manifeste de forma recorrente e com maior previsibilidade de resultados.
Em um cenário no qual conselhos, investidores e formuladores de políticas públicas demandam consistência, impacto e accountability, a adoção da ISO 56000 sinaliza maturidade organizacional. Ela indica que inovar não é um projeto pontual, mas uma capacidade estratégica construída para perdurar.
Talvez, portanto, a pergunta mais relevante hoje não seja se uma organização se considera inovadora, mas se ela possui um sistema capaz de sustentar a inovação ao longo do tempo. A ISO 56000 existe precisamente para apoiar essa reflexão e, sobretudo, para orientar a ação.
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