Cenários para o Irã
Os recentes eventos no Irã são uma consequência lógica do desmoronamento progressivo de seu regime.
Esse processo começou com o enfraquecimento da Rússia a partir da guerra na Ucrânia, o que a impediu de continuar ajudando o Irã a se manter e a alimentar seu sistema de forças irregulares, tais como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis.
A queda do regime da Síria em 2023 piorou ainda mais a situação do ponto de vista iraniano, e a “Guerra dos 12 dias”, em 2025, evidenciou a fragilidade militar dos sistemas de defesa aérea e a vulnerabilidade do país.
Agora, o sistema econômico entrou em crise e acendeu o estopim numa sociedade oprimida por um regime ditatorial. A repressão violenta gerou milhares de mortes.
Não é possível, neste momento, ter certeza se o governo do Irã conseguirá se manter no poder e, ainda que o faça, se conseguirá preservar a integridade territorial. Existem regiões do Irã com maiorias étnicas que não são persas, tais como os baluques, curdos, azeris, luros, turcos e árabes.
Também não é possível determinar se um novo governo seria estável e se teria uma estrutura republicana ou ditatorial. Podem-se, assim, estabelecer quatro cenários-base possíveis:
Secular – Nesse cenário, o Irã se torna estável e republicano. As liberdades econômicas e religiosas são restabelecidas, e o país começa a ser reconstruído de maneira similar ao que ocorreu com o Iraque depois de 2011.
Ditatorial – Aqui, o Irã se torna uma ditadura estável. Esse cenário pode ser tanto uma ditadura militar quanto religiosa, ainda que tenha cedido, reduzindo as restrições às liberdades individuais. Seria uma versão mais branda do regime atual.
Fragmentado – Neste caso, o Irã é republicano, mas instável. As várias regiões ganham autonomia e se tornam quase estados independentes, transformando-se numa federação que oscila no nível de cooperação entre seus entes. No melhor cenário, o Irã vira uma república federativa; no pior, fragmenta-se em diversos países.
Guerra civil – Nesta situação, o Irã é instável e ditatorial. Os vários grupos lutam pelo poder enquanto os persas, na região central, tentam impor sua autoridade sobre os outros grupos, que podem se tornar independentes ou buscar incorporação a países vizinhos, tais como Iraque, Paquistão, Turcomenistão e Azerbaijão.
Fica ainda a questão dos alinhamentos políticos, que podem ser a favor do Ocidente (EUA e Europa), da China, da Rússia e até mesmo da Índia. Isso provavelmente dependerá de apoio militar durante o período de instabilidade e de suporte para reconstrução.
É bastante improvável que a situação do Irã volte a se estabilizar da maneira como a ditadura religiosa existiu desde 1979. A população já chegou ao seu limite em termos de opressão, e o sistema religioso é amplamente rejeitado.
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