Projeto Preserva

Entenda por que a água de superfície do Cerrado está em ‘cárcere privado’

Maior parte da água de superfície do Cerrado está aprisionada em empreendimentos como hidrelétricas, reservatórios e áreas de mineração

Há quarenta anos, ela era a maioria. Atualmente, não é mais. Os dados mais recentes divulgados no fim do mês passado pelo MapBiomas mostram que a superfície de corpos naturais de água, como rios, lagos e lagoas, chegou ao fim de 2024 representando 40% da água total de superfície do Cerrado. Em 1985, quando se iniciam os dados da série histórica, eram 63%.

A chamada água antrópica, derivada das ações humanas, passou de 37% a 60% no período. Ela não corre livre no bioma. Está armazenada, aprisionada, em hidrelétricas, reservatórios e áreas de mineração. Segundo Joaquim Pereira, pesquisador do IPAM e do MapBiomas Água, as principais causas dessa mudança são a construção de grandes reservatórios para geração de energia e a expansão da agricultura irrigada.

A gravidade da situação corre de forma subterrânea, sob o manto de uma notícia relativamente boa, ou razoável: a de que, no total, a superfície de água observada no Cerrado em 2024 cresceu em relação à média histórica entre 1985 e 2024.

De acordo com os dados do MapBiomas, a superfície de água do país vem diminuindo, com exceção de 2022, o único ano que esteve acima da média histórica no período. Mais: oito dos últimos dez anos, estão entre os mais secos de 1985 para cá. Em 2024, a redução da área coberta por água no Brasil caiu 2% em relação ao ano anterior. Em relação à média histórica, a superfície caiu 4%.

O Pantanal foi o bioma que teve mais perda em relação à média do período (1985 a 2024): assustadores 61%. Assim como a Amazônia, que também teve redução hídrica (3,6% em relação à média histórica), apresenta maior prevalência de água natural. Parece pouco. Mas jogue esse percentual sobre outro, o da quantidade da superfície de água que a Amazônia abriga em relação a todo o país: 62%.

A água antrópica teve um crescimento total de 54% em relação a 1985. Mas esse ganho não foi suficiente para inverter a tendência geral de redução. Biomas densamente habitados, Cerrado e Mata Atlântica concentram também a maior parte das superfícies de águas artificiais, com 24% e 33%, respectivamente.

Os pesquisadores do MapBiomas apontam para a dinâmica de ocupação do solo e os eventos climáticos extremos, provocados, entre outros fatores, pelo aquecimento global, que estão tornando o Brasil mais seco.

Tocada pela ganância e seu conveniente negacionismo, essa redução das águas pode representar problemas e privações para gerações atuais e num futuro bem mais próximo do que se imaginava há 20, 30 anos.

Isso representa apenas o que está ao alcance dos olhos, já que nem as águas subterrâneas escapam da superexploração. O bombeamento para irrigação está entre os principais fatores, sendo que mais de 88% dos poços são ilegais. Regiões vitais como a bacia do rio São Francisco e o Cerrado enfrentam riscos severos à sua segurança hídrica e energética devido a essa prática descontrolada.

Nesses tempos em que se discute a urgência de alternativas à exploração e uso do petróleo e seus derivados, entre eles, guerras, outro líquido está merecendo até mais atenção. De que adianta encher o tanque do Jaguar do Juquinha de gasolina azul, se, da torneira, não sair mais água?

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