A esperança é feminina
Em Minas Gerais, onde a terra carrega tanto a cicatriz da violência provocada pela mineração quanto a força da resistência, celebrar a mulher é reconhecer uma tecnologia de sobrevivência. Se as montanhas mineiras pudessem falar, elas teriam voz de mulher. O mote “A esperança é feminina” é a constatação pragmática de que a regeneração do que restou do nosso estado (do nosso planeta!) passa, obrigatoriamente, pelas mãos, pelo intelecto e pela resiliência de quem exerce a “ética do cuidado”.
Essa perspectiva ganha profundidade na voz da socióloga e ativista indígena Avelin Buniacá Kambiwá. Para ela, o feminino é a própria força criadora que sustenta o cosmo e a cultura. Avelin ensina que a esperança feminina é uma ferramenta de luta ativa, um “esperar fazendo”, que se assemelha ao trabalho silencioso das raízes sob o solo.
Nas curvas do Cerrado e nos remanescentes da Mata Atlântica, essa recuperação ambiental tem rosto e nome. Enquanto o modelo extrativista se pauta pela ruptura, mulheres, geraizeiras, catadoras de sementes e cientistas, lideram o restauro. Depois dos desastres provocados pela mineração em Mariana e Brumadinho, as atingidas foram as primeiras a organizar a defesa do solo e a exigir a reparação da vida. Elas entendem que uma nascente recuperada é a garantia de que a comunidade não morrerá de sede.
Essa liderança se estende para o campo do trabalho e da sustentabilidade. Em solo mineiro, a agricultura familiar e a economia solidária são sustentadas por mulheres que transformam o manejo da terra em um ato político. O protagonismo feminino na economia verde busca a manutenção do tecido social e a geração de comunidades resilientes. O trabalho feminino, frequentemente invisibilizado, é o lastro de uma economia que respeita os ciclos naturais e garante a segurança alimentar. Como pontua Avelin Kambiwá, a violência contra os rios e montanhas é proporcional à violência contra a mulher; por isso, a luta pelo território é indissociável da autonomia feminina e da valorização de suas artes e saberes.
Na linha de frente das mudanças climáticas, a urgência é evidente. As mulheres são as primeiras a sentir o impacto das secas severas no Norte de Minas ou das chuvas avassaladoras. Estatisticamente mais vulneráveis, elas são as principais agentes de adaptação, desenvolvendo sistemas de captação de água de chuva e liderando brigadas de incêndio. Elas não esperam o clima mudar; mudam a lógica do consumo para que o clima não as aniquile.
Avelin nos convoca a “reflorestar mentes” e a ouvir os sonhos da Terra, abandonando a relação utilitária com a natureza. A esperança feminina é uma estratégia de sobrevivência planetária enraizada no território. É uma postura ética e política diante do mundo. O “feminino” surge vital como o que preserva, recupera e nutre. O futuro das nossas Gerais está sendo tecido agora por mãos femininas, entre o plantio de uma muda e a resistência de uma comunidade, para também adiar o fim do mundo.
A entrevista completa com Avelin Kambiwá você lê no site do Projeto Preserva.
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