A geopolítica do ecocídio de Trump e o esvaziamento da pauta ambiental
As regras mudaram drasticamente, ao observarmos o tabuleiro mundial de 2026. A diplomacia cedeu ao “Realismo Extrativista”. Não estamos mais diante da Doutrina Monroe, mas de sua atualização necrófila: a Doutrina Donroe, que visa garantir “Recursos das Américas para o Consumo Americano”, custe o que custar à biosfera.
Essa coluna é baseada na nossa conversa sobre o assunto com o professor Dawisson Belém Lopes, especialista em política externa, considerando o cenário distópico-realista que se desenha à nossa frente.
O óbito da governança climática pareceu decretado no gélido cenário de Davos. Donald Trump exigiu a exclusão da pauta ambiental de compromissos oficiais, segundo a revista Exame. Para a Casa Branca, a natureza é mero almoxarifado. A voracidade pelo petróleo venezuelano e minerais da Groenlândia não é capricho, é manobra de sobrevivência hegemônica.
A Fronteira do Colapso
O Brasil desperta em 2026 fazendo fronteira com um país ocupado militarmente. A Amazônia venezuelana, a ser explorada sem regulação para saciar a sede fóssil dos EUA, virou uma “zona de sacrifício”. Como o Brasil blinda sua floresta desse “efeito contágio” de degradação e
garimpo, estimulado pelo caos fronteiriço?
O risco físico é iminente. A infraestrutura da PDVSA (Petróleos de Venezuela, S.A., estatal que exerce – ou exercia – o monopólio da exploração, produção, refino, transporte e comércio de petróleo e gás natural do país) está sucateada. Aumentar a pressão de bombeamento sem caros e necessários reparos eleva drasticamente o risco de maré negra no Caribe, ameaçando ecossistemas marinhos e o litoral norte brasileiro.
O Paradoxo de Belém
Em meio a esse desmonte, a COP30, realizada ano passado, em Belém (PA), emerge como um farol de complexidade. O evento não salvou o mundo, mas segundo o professor Dawisson Belém Lopes, rompeu com a inércia de espiral de fracasso. Havia, nos últimos encontros, em Baku (Azerbaijão) e Dubai (Emirados Árabes Unidos), a sensação de declínio e de impasse. A COP de Belém trouxe pautas ambiciosas e os atores de volta à mesa, energizando a discussão.
Mas o Brasil encontra-se no centro de um paradoxo compartilhado pelo Sul Global: para financiar a transição verde, precisa vender o veneno que mata o planeta. A lógica de usar rendas petrolíferas para custear a descarbonização é eticamente reprovável, mas considerada “economicamente racional” diante do calote climático dos países ricos.
Essa contradição se aprofunda nos dados. Enquanto pregava a sustentabilidade na COP, o Brasil bateu seu recorde histórico de produção de petróleo em 2025, conforme dados da ANP e projeções de mercado. Somos a “potência verde” que alimenta a máquina de carbono?
Se a pauta ambiental foi esvaziada pelos EUA, qual deve ser a estratégia brasileira? Continuar apostando em alianças com a Europa e China, ou aceitar que o mundo virou um “vale-tudo” por recursos e nos rearmarmos para proteger os nossos? A invasão vizinha exige uma diplomacia de “contenção de danos” sem precedentes.
Trump não é eterno, mas o dano ecológico pode ser irreversível.
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