Os voluntários que plantam microflorestas em Belo Horizonte
Foi num sábado de manhã, numa mata do Zoológico, que vi esse grupo em ação pela primeira vez. Alguns ali não se conheciam porque os encontros para plantio são marcados pelas redes sociais e, assim, o grupo vai virando uma comunidade. Assim que chegamos, as pás de jardinagem já estavam separadas e todos começaram a colocar suas luvas de trabalho.
Nas primeiras horas, as pessoas mais experientes do grupo foram abrindo espaço para as mudas de goiabeiras, aroeirinhas, cedros, jatobás e ipês, espécies da Mata Atlântica e do Cerrado doadas pela Fundação Zoobotânica de BH.
César Pedrosa, cardiologista de profissão e plantador de florestas por vocação, circulava entre os voluntários orientando e plantando junto. Ele criou o coletivo Bora Plantar, uma associação sem fins lucrativos com a meta de replantar 12 áreas da cidade. “Plantamos em lugares que foram florestas no passado, mas que hoje estão degradadas. Estamos refazendo as florestas”. Essa iniciativa está no Mapa de Soluções Ambientais que criamos.
O que me impressionou não foi apenas a eficiência do trabalho. Foi a diversidade de quem se doava ali. Ao meu lado, adultos e crianças viviam a experiência de deixar de lado as telas e colocar as mãos na terra.
Além do @bora_plantar_bh , existem coletivos como o @arborizabh ou o @pomarbh que também organizam plantios coletivos para deixar a cidade mais habitável. Todos divulgam suas ações nas redes sociais e os convites são abertos a quem quiser se juntar.
Apesar da alegria que vi nesses encontros, essa ação voluntária faz uma resistência verde a um sério problema das cidades brasileiras: o excesso de concreto que impermeabiliza os solos e impede que a água da chuva siga o caminho correto.
Em conversa com a pesquisadora Carla Wstane, ela sintetizou a questão: “É a higienização dos centros urbanos em detrimento de uma tecnologia milenar que é o plantio de árvores. Os espaços verdes não são luxo ornamental, mas infraestrutura fundamental para a resiliência das cidades.
Foi só quando César Pedrosa me mostrou o trabalho de manutenção, que compreendi a dimensão do compromisso desses voluntários: eles voltam trimestralmente para impedir que o capim tome conta das mudas. Sem esse trabalho, muitas não vingam. Plantar é fácil, fazer sobreviver é o desafio. Cada muda precisa de cinco anos de cuidados para se estabelecer. Cinco anos de atenção, de luta contra o esquecimento, de resistência contra a lógica do imediatismo que domina nossa cultura.
Nos próximos meses, entre abril e junho, ainda há a ameaça dos incêndios. O Bora Plantar trabalha em parceria com a Brigada 1 e intensificam a roçada, a remoção do capim seco, a vigilância fica constante para evitar que o fogo destrua o que foi plantado.
Para além das mãos na terra, o coletivo apresenta propostas de políticas públicas na Câmara Municipal para aumentar a arborização urbana. 10 projetos já foram apresentados. É trabalho de formigueiro, de pequenas ações repetidas, mas talvez seja exatamente isso que precisamos reaprender: a longa paciência de quem planta florestas.
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