Acordo Mercosul-União Europeia reposiciona o vinho europeu no mercado brasileiro
O acordo entre Mercosul e União Europeia promete corrigir uma distorção histórica do mercado de vinhos no Brasil: o preço inflado de rótulos europeus medianos, que chegam ao país com aura de premium muito mais por efeito tributário do que por proposta enológica.
Se confirmado e implementado nos prazos previstos, o acordo deve ampliar o acesso do consumidor brasileiro a vinhos europeus de boa qualidade por valores mais condizentes com o que eles realmente são no país de origem.
Executivos do setor estimam que, ao fim do período de transição, a redução gradual das tarifas possa representar uma queda de 20% a 30% no preço final de determinados rótulos.
Segundo Alexandre Magno, do Grupo Wine — que também controla a Cantu Importadora e a plataforma Bodegas —, esse movimento tende a reposicionar o mercado, hoje dominado pela América do Sul, responsável por cerca de dois terços das importações brasileiras, enquanto a Europa responde por aproximadamente 32% do total importado. Com o novo acordo, a expectativa é de ampliação da participação europeia nas importações, o que deve estimular tanto o consumo quanto a dinâmica econômica do setor.
Para Jonas Martins, diretor comercial da MMV Importadora, a abertura favorece especialmente países como França e Itália, cujos vinhos de faixa média entregam qualidade consistente, mas chegam ao Brasil com preços que os empurram artificialmente para o segmento superior. Regiões clássicas como Bordeaux, Borgonha, Piemonte e Toscana podem, finalmente, disputar espaço em igualdade de condições com chilenos e argentinos — uma concorrência que, até agora, nunca aconteceu de fato.
Jonas ressalta ainda que Portugal e Espanha também aparecem como grandes beneficiários. Já competitivos em preço e reconhecidos pela boa relação custo-benefício, esses países podem se tornar protagonistas do consumo no Brasil no médio e longo prazo, caso o acordo avance.
O impacto, porém, será sentido sobretudo no miolo do mercado. Vinhos icônicos, raros, de produção limitada ou forte demanda global seguem regidos por outra lógica: a do valor simbólico, da escassez e da história. Uma garrafa que custa milhares de reais dificilmente ficará mais barata — e pode até se valorizar se a demanda crescer sem aumento de oferta.
Além dos preços, o acordo tende a acelerar mudanças culturais e regulatórias. “Não apenas para o vinho, mas também para outros produtos. Regras de sustentabilidade, rastreabilidade e acordos ambientais precisarão ser respeitados em mão dupla. Uma inovação recente nos vinhos europeus é a exigência de tabela nutricional e lista de ingredientes, com informações como calorias e nutrientes. A MMV Importadora já está se adaptando, e todo o mercado terá de fazer o mesmo”, exemplifica Jonas.
Também pode haver estranhamento na embalagem. Enquanto os europeus adotam garrafas mais leves para reduzir impacto ambiental e custos logísticos, o consumidor brasileiro ainda associa peso a qualidade.
No fim, o acordo não promete apenas vinhos europeus baratos, mas sim um mercado mais maduro, diverso e competitivo.
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