Vinho da Casa

Um apelo aos clássicos na Páscoa: vinho do Porto e chocolate

Trata-se de uma das raras harmonizações possíveis com chocolate

Para além de todo o simbolismo religioso, a Páscoa, para mim, é sinônimo de vinho do Porto. Se isso te causa espanto, dou um bom motivo para embarcar na ideia: trata-se de uma das raras harmonizações possíveis com chocolate, um dos grandes protagonistas da celebração.

Além disso, tenho ascendência portuguesa, o que fez com que garrafas de vinho do Porto estivessem presentes em todas as datas comemorativas desde a minha infância. É uma memória afetiva forte.
Vinho fortificado doce, produzido a partir de uvas cultivadas na região do Alto Douro, em Portugal, o Porto costuma nascer de uma mistura de castas locais — geralmente cortes de vinhos de diferentes safras.

Em muitos lugares, a pisa a pé ainda acontece após a vindima, para extrair rapidamente cor e taninos das cascas. Apesar da tradição, hoje é comum ver máquinas reproduzirem o efeito desse processo.
A fermentação é interrompida com a adição de aguardente vínica, o que elimina as leveduras e preserva parte dos açúcares naturais do mosto. O resultado é um vinho doce, com teor alcoólico elevado. Passa por envelhecimento antes mesmo de ser engarrafado.

É justamente esse envelhecimento que molda estilos distintos, como Ruby e Tawny. Segundo a análise sensorial clássica do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, são dois caminhos a partir da mesma origem. O Ruby é intenso, tem cor profunda, quase púrpura, corpo robusto e textura mais tânica, com destaque para a fruta preta ou vermelha fresca com um final persistente. Já o Tawny segue por outra via: envelhecido por mais tempo em madeira, ganha tonalidades âmbar e alouradas, perde peso e ganha delicadeza. No lugar da fruta fresca, surgem notas de frutos secos, nozes, amêndoas, caramelo e casca de laranja, em um conjunto mais suave.

Para quem quiser ir além, há ainda o Vintage, considerado o ápice de qualidade entre os Portos. Produzido a partir de uvas excepcionais de uma única safra, éestruturado, concentrado e de grande longevidade. Após um curto período em madeira, evolui lentamente na garrafa por décadas, desenvolvendo complexidade.

Sim, eu declaro amor aos vinhos do Porto. Mas reconheço que esse entusiasmo já não é tão comum. Com a tendência de bebidas mais leves — e até zero álcool —, a palavra fortificado pode soar pesada para as novas gerações.

Então, faço aqui um pequeno pedido de Páscoa: abra uma exceção e prove. Se mesmo com meu apelo aos clássicos portugueses isso não funcionar, há uma dezena de outros fortificados capazes de fazer bem ao seu paladar. São vinhos que podem abrir o apetite antes de uma refeição, acompanhar lanches doces e trazem muito consistência para as sobremesas.

Na França, a rota dos Vins Doux Naturels revela grandes rótulos, como os Banyuls. Na Itália, os Marsala doces, produzidos na Sicília, trazem notas de figo e amêndoa. E, na Andaluzia, o Pedro Ximénez entrega uma sobremesa na taça, porque além de receber aguardente vínica, é feito com uvas passificadas, resultando em sabores profundos de uvas passas e figos secos.

Vai lá, prova e me conta depois. Tomara que dê certo!

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas