Vinho da Casa

Ao escolher vinho, a confiança do porto seguro ou a descoberta do novo

Há quem escolha pela uva, outros pela ocasião, alguns pelo preço

Há vinhos que escolhemos pela uva, outros pela ocasião, alguns pelo preço. Há também os que escolhemos pelo coração, que carregam um tipo de afeto ou memória de uma primeira viagem, uma conversa ou um jantar especial. São os rótulos porto seguro, aqueles para onde sempre voltamos.
Por mais que o mundo do vinho se apresente como um convite à descoberta, como novas regiões, safras experimentais, técnicas ousadas, às vezes a bússola emocional nos puxa de volta ao mesmo ponto de partida.

E no momento memória conforto é preciso descobrir o que te move na escolha do rótulo. Porque, vamos admitir, experimentar algo novo dá trabalho. Requer todo aquele papo de que é preciso disposição para errar, arriscar e até admitir que nem todo vinho raro te encanta.

Ao longo da minha formação, que segue sempre em curso, um professor contou que presenteou a sogra com um champanhe legítimo no Réveillon. Foi criticado, ela não gostou do que degustou e até lançou a dúvida sobre a qualidade do produto.

Ele não está sozinho. O dito casa de ferreiro, espeto de pau está muito presente entre sommeliers Brasil afora. Porque, se existe uma verdade incontestável, é que gosto não se discute.

Às vezes, o consumidor só quer a segurança de saber o que vai encontrar. Ao contrário de outras bebidas, o vinho é companhia. E os vinhos porto seguro não são escolhidos pela técnica, mas por uma certa coerência afetiva com a gente.

Paralelamente, há o movimento dos rótulos que ficam badalados, viram moda e criam uma espécie de código social de consumo.

São, por exemplo, os vinhos que marcaram época, como as garrafas azuis alemãs (Liebfraumilch e afins), que despertaram o paladar do brasileiro na década de 1990.

Algum tempo depois, os tradicionais rótulos de vinhos portugueses fizeram esse papel. Era sinônimo de qualidade.

Também passamos pela onda dos reservados chilenos e agora estamos in love incondicional com algumas marcas famosas de Mendoza, na Argentina. São vinhos de alta concentração de aromas, sabores densos e encorpados, marcados pelo uso da madeira, com notas doces e levemente tostadas, que muitas vezes se sobrepõem ao sabor da uva.

Gosto de todos esses? Quase. Não recomendo a garrafa azul, mas, em geral, os brancos alemães da casta riesling são divinos, experiência de refrescar o coração no verão que se aproxima.

A diversidade dos vinhos tintos de Portugal é também encantadora e surpreendente, de norte a sul. Outro dia, tive o prazer de abrir uma garrafa Morgado do Quintão da casta Negra Mole, do Algarve, safra 2022. Era um tinto clarinho, também conhecido como clarete, com aromas de fruta fresca e morango na boca.

Do Chile, venho optando pelo Pinot Noir do Vale de Casablanca, na Região de Valparaíso, entre a Cordilheira da Costa e o Oceano Pacífico. E, da Argentina, faço questão de escolher os não barricados, que ainda preservam o sabor mais natural da fruta e do seu terroir.

Talvez o segredo seja sempre o equilíbrio, voltar ao que amamos e se permitir, aqui e ali, uma taça que surpreenda o paladar.

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