Vinho da Casa

Vinho sem álcool, uma tendência e suas contradições

Mesmo que não faça sentido para quem tem restrições médicas ou prefere não beber, o vinho desalcoolizado não é uma solução geral

Já virou clichê dizer que o vinho de baixo teor alcoólico está em alta no verão. É lugar-comum, mas concordo totalmente com essa ideia. Quando servidos na temperatura adequada — bem geladinhos —, espumantes, vinhos brancos e frisantes têm sua acidez e perfil aromático acentuados, garantindo a refrescância necessária para os dias de calor intenso. Contudo, a indústria foi além: a tendência absoluta do momento é o vinho totalmente sem álcool.

De olho na busca por saúde e bem-estar e no comportamento das novas gerações, que consomem bebidas alcoólicas com muito mais moderação, o setor aposta alto nessa diversificação. Uma das gigantes do mercado, a Nova Aliança — vinícola cooperativa mais antiga do Brasil —, entrou de vez nessa onda. Desde 2024, a marca produz o espumante Santa Colina Moscato Zero Álcool. O produto é gaseificado e apresenta um perfil adocicado. No visual, a coloração amarelo-palha engana o olhar e remete imediatamente ao espumante tradicional.

Outra gaúcha de peso na categoria é a Aurora, que oferece uma linha completa com tintos, brancos e espumantes elaborados a partir de castas como Chardonnay, Merlot e Cabernet Sauvignon. Os tintos têm até passagem por barricas de carvalho.

A Casa Valduga propõe drinques sem álcool para o Carnaval com o Ponto Nero Live Zero Branco, bebida gaseificada elaborada com uva 100% Moscato Branco, de coloração amarelo-palha com reflexos esverdeados. No perfil aromático, destaca notas de lichia, jasmim e frutas como pêssego e abacaxi. Já o Ponto Nero Live Zero Dry Rosé, elaborado com 97% Prosecco e 3% Merlot, apresentando coloração rosa flor de cerejeira e aromas delicados de frutas de caroço, como nectarina e pêssego, combinados com notas de maçã e framboesa.

Mas vamos aos fatos: tecnicamente, o álcool é um subproduto natural da fermentação. Para eliminá-lo, o vinho precisa passar por algumas intervenções, como a evaporação fracionada – que remove o álcool em baixa temperatura, sob vácuo –, ou a osmose reversa – que separa o álcool e a água do restante do vinho. São técnicas sofisticadas que necessitam de maquinário específico, feitas em larga escala, o que distancia o produto final da vinificação natural e artesanal da uva.

Embora faça sentido para quem tem restrições médicas ou prefere não beber, o vinho desalcoolizado não é solução geral. Para compensar a perda de corpo e estrutura que o álcool confere, muitas indústrias adicionam açúcares e conservantes para equilibrar o paladar. Assim, para dietas de restrição calórica, por exemplo, talvez uma opção alcoólica seria mais equilibrada.

Além disso, a desalcoolização muitas vezes sacrifica a complexidade tátil da bebida. Além de afetar severamente a experiência olfativa. O álcool traz calor e preenche a boca; sem ele, a experiência pode perder todo o sentido. Afinal, vinho é muito mais do que apenas uma bebida alcoólica: é ritual, território e, acima de tudo, tempo.

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