Abrindo espaços
O cinema brasileiro está no centro das atenções por conta de premiações recebidas no exterior, em especial o Globo de Ouro, conferido ao ator Wagner Moura, protagonista do filme “O agente secreto”. Este olhar, de grande importância para nossa cultura, chama atenção, evidentemente, para a indústria cinematográfica e sua relevância em diversos planos, inclusive o econômico. Mas exibe também lacunas que devem ser melhor percebidas, em especial no que toca ao acesso do público à produção local e, mais amplamente, à diversificação que lhe é própria. Estamos falando dos mecanismos de exibição, portanto, também das condições de acesso amplo e irrestrito à cinematografia global, expressões culturais diversificadas, mas às quais o público brasileiro não tem tido acesso pleno.
Tudo por conta dos mecanismos de distribuição, cujo controle, a partir do exterior, muito tem contribuído para privar o público brasileiro de livre acesso à rica e diversificada produção global. Houve um tempo, e não faz muito, em que era diferente, com espaços de acesso também principalmente à cinematografia europeia, de apelo cultural certamente mais forte e refinado que a oferta vinda de Hollywood, hoje praticamente monopolista no mercado brasileiro. Algo que significa também a imposição de padrões, preferências e até mesmo interesses que não são necessariamente os nossos. Cabe pensar a respeito, sobretudo com o entendimento que estes processos hegemônicos refletem mais amplamente questões políticas e econômicas que minimamente tendem a sufocar a cultura local e seus valores.
Até as alturas dos anos 70, no século passado, a exibição cinematográfica estava concentrada em salas de projeção que, como regra, representavam também a mais larga porta de acesso a estes bens culturais. Os ditos cinemas de rua foram perdendo espaço para os shopping centers e, mais recentemente, sistemas eletrônicos associados à internet passaram a ser preponderantes. Espaços precificados, confinados, restritos e, tanto pior, quase na totalidade controlados por grupos econômicos externos e monopolistas. Sem lugar para a diversidade, retirando do cinema como bem cultural seu mais relevante aspecto. Os saudosos do cinema europeu ou, mesmo, os que reclamam mais espaço para a produção nacional precisam entender o que se passa.
Para compreender também que esta é uma situação empobrecedora, à medida que impõe padrões que não são necessariamente os desejados, privando o público brasileiro de experiências mais diversificadas e certamente mais ricas.
Ouça a rádio de Minas