Editorial

Apenas o esperado

Tragédia na Zona da Mata expõe o problema da ocupação urbana desordenada e milhares de moradores em áreas de risco
Apenas o esperado
Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

As chuvas de verão, que neste ano fizeram da Zona da Mata mineira, em especial da cidade de Juiz de Fora, palco de inundações, deslizamentos e outras ocorrências de proporções trágicas, não podem ser debitadas à conta do acaso ou da imprevisibilidade. Mesmo que sua intensidade assuma condições ainda mais dramáticas, tais ocorrências são repetitivas e decorrem de realidade muitíssimo bem conhecida, mesmo que agravada pela piora das condições ambientais. O que se passou em Juiz de Fora é explícita demonstração do que estamos querendo dizer.

Conforme dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), entre os mais de 5 mil municípios analisados a cidade mineira ocupa a nona posição no ranking nacional das que têm maior número de moradores em áreas de risco. Seriam mais de cem mil pessoas nessas condições, ou espantosos 25% da população local, significando dizer que um quarto dos moradores de Juiz de Fora encontra-se em situação de risco. No momento, e como precisamente vem sendo feito, trata-se de acudir às muitas situações de emergência e de levar mínimo conforto aos desabrigados.

Para a frente é preciso entender as exatas causas dos acontecimentos e assim tomar o verdadeiro caminho das soluções. O que se passa, não apenas em Juiz de Fora, mas em todas as cidades em que condições semelhantes se repetem, é apenas e tão somente o fruto previsível do descaso, da improvisação e da desordem no processo de ocupação dos espaços urbanos. Falta o mínimo de planejamento, de urbanismo no seu sentido pleno e as consequências não poderiam mesmo ser outras. E com o agravamento decorrente do adensamento populacional, igualmente desordenado, e das condições climáticas em franco processo de deterioração.

Em Juiz de Fora, onde mais de seis dezenas de mortes estão sendo pranteadas, as enchentes fazem parte de uma triste rotina que se repete há muito tempo. E não será diferente no futuro enquanto as condições permanecerem as mesmas, com o absurdo até de construções serem reerguidas nos mesmos espaços e nas mesmas condições. Para apenas aguardarem a próxima enchente e sua carga de dor e perdas que a rigor não podem ser contadas.

Nesses dias muito foi dito sobre suposta redução de recursos, a nível estadual, para investimentos em melhorias e reparações efetivas. Algo evidentemente a ser apurado, mas sem que não seja perdida a verdadeira natureza dos esforços que continuam por ser realizados.

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