Condições de sobrevivência
Ao final da Segunda Guerra, em 1945, imaginava-se que o balanço das perdas decorrentes do conflito bastaria para garantir que jamais a insanidade se repetiria na mesma escala. A reconstrução, a rigor limitada aos países mais ricos da Europa Ocidental e ao Japão, seria também a marca de uma nova era de paz e prosperidade, com o pêndulo do poder econômico, político e militar deslocado para os Estados Unidos. Estas foram as bases do modelo que perdurou até recentemente e que produziu também a ilusão de que paz e prosperidade poderiam ser suportados pela harmonia e colaboração entre países. Bases que, já no final do século, foram suportes também para a difusão do conceito de globalização, em que supostamente não haveria mais fronteiras para os negócios e o multilateralismo seria elevado a um patamar nunca antes alcançado.
Muitos se imaginaram mais próximos do paraíso, sem perceber que tudo talvez não tenha passado de mais um movimento para consolidar e ampliar posições dos países mais ricos. Uma ilusão que a pandemia desmanchou em pouco tempo, fazendo ver que a dependência ditada exclusivamente pela busca da redução de custos representava – e minimamente – riscos estratégicos que não poderiam ser suportados. A dependência com relação à produção de componentes eletrônicos ou de medicamentos, como vacinas de importância crítica, foram como que a pá de cal sobre o assunto.
São condições presentemente percebidas de forma ainda mais clara por conta de mudanças ditadas pelos Estados Unidos, principalmente com relação às questões comerciais. As bases do modelo construído a partir de 1945 estão destroçadas, da mesma forma que as ilusões de que a paz – ou antes o bom senso – poderia ser afinal alcançada. Colaboração e entendimento não cabem mais sequer como retórica e conveniência, o comércio internacional caminha para ser não mais que um “salve-se quem puder”, com isolamento passando a ser requisito de sobrevivência, pelo menos de menor exposição. Em outras palavras, o mesmo que nos disse recentemente o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Flávio Roscoe, ao assinalar que a escalada das tensões no Oriente Médio marca o fim da era de previsibilidade nas relações internacionais e acende um alerta para a economia local.
E recomenda que diante de um cenário geopolítico cada vez mais conturbado e instável a indústria mineira deve se articular para fortalecer a produção interna e reduzir a dependência externa, sobretudo de insumos. Num olhar mais próximo, de fato, o sentimento que prevalece é o de que autonomia e autossuficiência passaram a ser condições de sobrevivência.
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