Editorial

Esforços perdidos?

Disparada do petróleo expõe fragilidades do mercado global e seus reflexos no Brasil
Esforços perdidos?
Crédito: Reprodução/ Adobe Stock

Não foi preciso esperar muito para que a dança dos preços do petróleo tivesse início, uma das consequências mais temidas do confronto aberto entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã de outro. Depois de duas semanas de guerra, tempo talvez longo demais se consideradas as avaliações iniciais vindas de Washington, o barril de petróleo brent bateu nos 100 dólares e superou essa marca que chegou a ser apontada como espécie de teto para os preços internacionais, se mantidos num patamar administrável.

Muita gente entende ser este um resultado absolutamente previsível pelo fato de que o Irã é dono de grandes reservas de óleo cru, além de deter a condição de respeitável produtor. Já seria o bastante, mas caberia acrescentar que em tese o país controla o Estreito de Ormuz, passagem obrigatória para pelo menos 20% do petróleo mundial, além de gás, e rota essencial ao abastecimento de inúmeros países. Mesmo sem que tenham se concretizado as ameaças de bloqueio total do Estreito, fatores de perturbação continuam presentes.

São dados objetivos, a simples realidade, agravados tanto pela sensibilidade do mercado mundial de petróleo quanto por conta das especulações em torno do produto, situação que com certeza ajuda a explicar oscilações das últimas semanas. Problemas a mais para o planeta, consequentemente também para o Brasil, situação que os consumidores de derivados refinados já percebem quando estacionam seus veículos diante de uma bomba para reabastecimento. E tudo porque o Brasil, numa postura que talvez jamais possa ser bem explicada e muito menos compreendida, aceitou entrar no jogo da paridade internacional dos preços do petróleo. Mesmo produzindo hoje cerca de 3 milhões de barris/dia, dos quais 2 milhões para exportação.

A autossuficiência só não é plena porque a capacidade de refino não cobre a demanda de combustíveis líquidos, assim ainda dependente da importação de gasolina e diesel. Uma realidade a ser evidentemente considerada, mas contas bem simples demonstrarão que o resultado final, sobretudo considerada a recente escalada dos preços, resultará em saldo amplamente positivo para o País. Portanto, sem que este peso deva ser necessariamente transferido ao consumidor final ou aos acionistas da Petrobras, muito lembrados nessas ocasiões.

O País que foi capaz de escapar da dependência externa para prospectar e extrair petróleo em águas profundas, condição que lhe confere posição de vanguarda ainda hoje, também deveria ter como escapar desse jogo desigual e de cartas marcadas. Renunciar a essa possibilidade pode ser o mesmo que renunciar a colher os frutos de conquistas tão relevantes e que são de todos os brasileiros.

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