Editorial

Fazer mais e fazer melhor

Flexibilizar regras para atrair investimentos em Belo Horizonte é válido, mas não deve repetir erros urbanísticos do passado
Fazer mais e fazer melhor
Belo Horizonte | Foto: Diário do Comércio/ Leonardo Leão

O prefeito Álvaro Damião, de Belo Horizonte, imagina que impulsionar investimentos na cidade e, consequentemente, promover crescimento econômico, significa reduzir impedimentos, substituindo o “não” pelo “sim” nas relações com investidores e empresários. Faz sentido, na medida que tal atitude signifique remover obstáculos meramente burocráticos, porém sem que seja perdido o senso de realidade. Algo como a ideia, que encontra defensores, da construção de prédios de 50 andares ou mais sem que sejam levadas em conta as condições de circulação no seu entorno. Algo como repetir os erros cometidos na região do Belvedere, cujo acesso às regiões centrais depende de que seja vencido o “funil” representado pela avenida Nossa Senhora do Carmo.

Certamente não estamos diante de bons exemplos de planejamento e adequado urbanismo, de nada que mereça ser repetido como experiência exitosa. Bem ao contrário, mesmo que seja outro o entendimento de quem aposta na possibilidade de bons negócios a partir da implantação de um Plano Diretor mais flexível para a cidade. Gente que lembra que Belo Horizonte não ganhou novos loteamentos nas duas últimas décadas, mas não percebe que, a rigor, simplesmente não existe disponibilidade de áreas que possam atender adequadamente à população de maior renda. São os mesmos que apontam para a migração para municípios vizinhos, como Nova Lima e Brumadinho, sem o entendimento elementar de que este é um movimento tão natural quanto inevitável.

Fazer diferente deve necessariamente significar também fazer melhor e, para reforçar a idéia, mais uma vez pode ser lembrado o exemplo do Belvedere. A liberação da verticalização e consequente adensamento foi objeto de grandes e prolongados debates, mas as decisões tomadas foram evidentemente contaminadas por interesses imediatistas. E tudo para fazer da região uma espécie de oásis ou uma ilha sem acesso adequado ao restante da cidade, dependendo de um trânsito a cada dia que passa pior e mais congestionado.

Trata-se de observar para aprender e assim dar melhor sentido às discussões que aos poucos vão se ampliando. Um novo Plano Diretor, conforme propõe a PBH, pode ser oportuno, mas o “sim” não deve ser transformado em porteiras abertas a novos e maiores abusos, rasgadas as mais elementares regras do urbanismo bem feito.

Porque, afinal, investimentos sustentáveis como corretamente deseja o prefeito Álvaro Damião nascem e crescem a partir de raízes fortes, muito longe, portanto, da especulação imobiliária que tantos males já causou à cidade.

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